quarta-feira, 8 de abril de 2015

Temos um novo site, confira.


NOTA IMPORTANTE

Prezado leitor/paciente; estamos em fase de transição, migrando todo o conteúdo desse blog para o site www.drhomeroguidi.med.br 

Todos os artigos postados aqui, agora estão disponíveis, na íntegra, no referido site 

Visite nosso novo canal  de contato, clicando aqui 

Obrigado.

Dr. Homero Guidi. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Vacina contra Herpes - tudo o que você precisa saber

Há oito tipos do Herpes (palavra correta é o Hespes, Hespes Vívus e não a Herpes).
Na classificação denominamos famílias Herpesviridae.

Os principais, mais comuns, são:

1 - O Herpes vírus genital/oral ou científicamente  Herpes Vírus Simplex  tipos 1 e 2.
2 - O Herpes Zóster, também conhecido como Vírus Varicela-Zóster (ou Zooster).

Os primeiros acometem a região oral, notadamente os lábios e regiões vizinhas, até a mucosa nasal, os genitais masculinos e femininos. Ambos são de transmissão direta por contato. Embora não seja comum o 1 e o 2 podem acometer cruzadamente os dois lugares.

Para o Herpes Simplex  1 e 2  ainda não existe vacina disponível.

Para o Herpes Zóster existe uma vacina atenuada que pode prevenir  os seus surtos ou amenizar os sintomas desses surtos em pessoas com mais de 50 anos.  Na realidade um episódio de Herpes Zóster é sempre uma reativação o vírus da Varicela (a famosa catapora, que nos acomete quando crianças).

As manifestações agudas do Herpes Zóster costuma ser muito dolorosas e aparecem em pessoas de mais idade quando existe um enfraquecimento imunológico da pessoa (causa podem ser bastante variadas).

São comuns o acometimento de faixas (dermátomos) de pele na região do tronco. Geralmente uma região que é bastante frequente (50%) é a região torácica, indo de acima abaixo (axila, região peitoral até o término das costelas). Aparecem multiplas pequelas bolhas acastanhadas/avermelhadas e dolorosas (vesículas). O conteúdo dessas vesículas e muito rico em vírus e são altamente contagiosos, para outros adultos ou crianças de baixa idade. Só quando elas secam e forma crostas é que o perigo de contágio diminui drásticamente. Outras regiões envolvidas podem ser: a região da nuca, descendo pela escáula , ombro e porções variáveis do braço. Essa distribuição aparentemente caprichosa, tem uma explicação simples, ele segue o trajeto de grandes nervos ou nervos importantes. O primeiro é do nervo torácico, o segundo é no plexo braquial.  Há ainda localizações mais sérias como o nervo facial que quando afetado pode dar paralisia fascial, erupções no conduto auditivo (orelha), pálato  (céu da boca) e língua e o nervo oftálmico que acomete a região ocular, com ptose da pálpebra acompanhando as vesículas, e grande chance de desenvolvimento de doença ocular crônica, recorrente e mesmo cegueira.

Para o Hespes Zóster existe uma vacina em dose única, recomendada para pessoas de mais de 50 anos. Ela é de aplicação intra-dérmica, com efeitos colaterais benignos e locais (ligeira dor no local, edema, hematomas, etc). A vacina é contra-indicada em pessoas com febre acima de 38,5 oC., estados conhecidos de imunossupressão (linfoma, quimioterapia, leucemia, AIDS, tratamento supressor, incluindo altas doses de corticóides em uso, etc.  Devem ainda evitar-se o seu uso em pessoas com reconhecida alergia à neomicina e gelatina.

A vacina contra o Zóster não tem, até onde foi estudada, nenhum efeito sobre os tipos 1 e 2  (oral/genital).

Os outros tipos de Herpes vírus conhecidos, para seu conhecimento e informação, são

Herpes vírus simplex 1
Herpes vírus simplex 2
Vírus da Varicela- Zóster
Vírus de Epstein- Barr
Vírus do Sarcoma de Kaposi
Citomegalovírus
Herpes vírus humano 6
Herpes vírus humano 7.

sábado, 25 de outubro de 2014

HPV - últimas novidades em outubro de 2014


Em evento muito recente, reunindo especialistas de 57 países do mundo, em Barcelona na Espanha, várias experiências globais foram compartilhadas. Dessa vez o Brasil não fez feio. 

Embora tímida, sua campanha de vacinação das meninas em idade pré-puberal foi admirada por toda a plateia, em termos do seu índice de cobertura (aproximadamente 90% dessa faixa da população recebeu a vacina pelo sistema público). Só a Austrália, que fez isso em 2007/2008 tem índices semelhantes, juntamente com os países nórdicos, onde cada habitante, foco da iniciativa de saúde pública recebeu carta com nome e sobrenome. Anos luz à frente do resto do mundo. 

O HPV é um vírus que pode causar o câncer de colo uterino, câncer anal e câncer de laringe/cabeça e pescoço, vulva e pênis.

Mas ainda falta estender o benefício aos meninos, que também padecem e transmitem o vírus.

SAIBA MAIS

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Vacinação contra o HPV no Brasil - 2a. etapa


Nessa semana o Brasil realizou a segunda etapa da vacinação contra o HPV  para as meninas entre 9 e 11 anos.

É fato para comemorar. Vacinação no Brasil sempre foi coisa séria, mesmo com todas as intempéries políticas, uma erva daninha na área da Saúde.

Se as pessoas clamam, exigem e demandam um estado laico (até rezam por isso!), na Saúde deveríamos ter uma blindagem técnica igual.

Saúde não é política. É coisa básica da qual político nenhum pode chegar perto a não ser para melhorar e não esperar dividendos. Não faz nada mais do que a obrigação e olhe lá.... Sempre poderia fazer um pouco mais!

Bom, mas voltando aos ovos que frigem... Nova leva de imunização. Ótimo.

Como Urologista estou totalmente descontente com esse programa. E os meninos? Será que ninguém no MS ou em qualquer outra sigla que se incumba de vacinação não aprendeu nada com a Austrália?

Será que essa gente não lê literatura médica?

Não me venham com argumentos financeiros que eu tenho um caminhão trucado, de umas trinta toneladas, de desvairos financeiros, até a fundo perdido e criminoso, para descarregar em cima da cabeça e ainda colocar uma lápide de RIP...

Não mexam comigo nisso.

Aos pais leigos que me leem, algumas coisas bem simples:

1 - A vacina não tem o vírus vivo;

2 - A vacina não estimula sexo precoce. De onde tiraram isso ??? Só se vocês, pais, não estiverem conversando com filhos e filhas de 9 a 11 anos... Se não estão, repensem imediatamente sua vida. Mais tarde isso não vai acontecer, de jeito nenhum!;

3- O único efeito colateral é uma dorzinha no braço. No "Dr. Google" tem um monte de asneira sem respaldo científico. Sem outros comentários. Compre um carro pelo Google, se você acredita tanto nele! Só não venha reclamar comigo. Isso não foi uma sugestão, mas uma provocação.
Atrás da minha afirmação estão quase mais de 200 milhões de dose aplicadas (não, você não leu errado, são 200.000.000 de doses).  Tem país que não se limita as moçoilas de 9 a 11 anos. Vai bem mais além, meninos e meninas, jovens até os 26 aos de graça ou com cobertura dos seguros de saúde;

4 - Câncer de colo de útero não é a única coisa que a vacina previne. Também previne câncer de laringe e de ânus.

E mais: seu filhão pode lhe chamar no canto e mostrar umas verrugas horríveis  no seu "equipamento" e talvez ele não tenha um Dr. Homero ou genérico por perto... Condiloma, crista de galo não é coisa de gente pobre.... Está aí, a atazanar todo mundo, em todas as classes sociais. Hoje ninguém mais faz sexo no escuro. Com a luz acesa, olhando uma verruga "naquele" lugar, não tem nada mais frustante do que um "não, não , não...."

Amar não é só ir ao shopping, comprar aquele tênis, aquele iphone, ou dizer belas palavras. 

Amar é enxergar longe, pensar, prevenir e fazer tudo o que a gente pode pelos pequenos e jovens que criamos. 

Porque com a gente mesmo, cá entre nós, sabemos que não fazemos a "lição de casa" certinha, não é?


Nossos pais, se soubesse e/ou estivessem aqui, iam dar um bom puxão de orelhas na gente, não é não?

terça-feira, 26 de agosto de 2014

HPV2014 - Congresso Mundial em Seattle, EUA Agosto de 2014

ECOS DO CONGRESSO

Lição de casa para os médicos envolvidos com o HPV -

"O que o ginecologista, urologista, proctologista, otorrino e cirurgião de cabeça e pescoço deveriam dizer aos pediatras?

Cuide bem dos seus pacientes para que eles não se tornem nossos pacientes"

É um fato simples que reflete o consenso dos especialistas do mundo inteiro de que meninas e meninos devem receber a vacina com o vírus do HPV.  Entre os 9 e 15 anos ocorre a melhor qualidade em imunização ( melhor resposta imunológica, em anticorpos, etc.). 

Isso vai evitar  uma quantidade enorme, praticamente eliminando a chance dessas crianças desenvolverem cânceres como o de colo uterino, anal, peniano, da oro-faringe, etc.

O Congresso, realizado em Seattle, estado de Washington, perto do Alaska, na costa oeste (Pacífico) realizou-se entre 20 e 25 de agosto e reuniu especialistas do mundo inteiro em ciências básicas, clínicas e saúde pública. 

www.hpv2014.org  


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Gonorréia um fantasma em ascenção

Ainda não existem dados oficiais e recentes, mas a prática clínica e notadamente a troca de informações entre diversos colegas em especialidades afins tem levado a constatação e conclusão (com base na experiência praticamente unânime dos demais colegas) de que estamos vivendo uma epidemia de infecção pelo gonococo, o causador da gonorréia. 

No homem a manifestação principal é uma inflamação da uretra, chamada uretrite, com produção de pus abundante, amarelo-esverdeado, fortes sintomas de irritação, dor e ardor da uretra, edema do pênis e vermelhidão, consequente à inflamação. Os sintomas urinários (ardor para urinar e até febre) podem ser os primeiros e sugerir apenas uma infecção urinária. 

Na mulher além da inflamação vaginal pode haver um quadro mais grave chamado moléstia inflamatória pélvica que atinge além da vagina as trompas e ovários com dor importante no baixo ventre (o "pé" da barriga). 

A transmissão do gonococo é eminentemente sexual, nas diversas formas de contato (vaginal, anal e oral). Alguns pacientes, homens e mulheres, podem portar o gonococo na garganta e reto, sem necessariamente apresentarem sintomas, mas funcionarem como transmissores. 

O tratamento da gonorréia merece cuidado especial e acompanhamento. No mundo todo vem sendo notada uma resistência crescente aos antibióticos tradicionais utilizados para o tratamento da bactéria. Não é incomum que haja, ainda, a associação com outros agentes no mesmo quadro infeccioso (como  a associação entre gonococo e clamídia). 

A menor suspeita consulte um médico. Evite o balconista, mesmo porque, antibióticos só com receita médica. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

HIV no Brasil - Outra goleada perdida.




Dados recentes da UNAIDS, órgão ligado a Organização Mundial de Saúde mostram que, ao contrário do que a maioria dos outros países, a transmissão do HIV no Brasil, nos últimos 8 - 9 anos, como "nunca antes nesse país", aumentou 11%.

O grupo mais afetado são homens jovens que fazem sexo com homens  (HSH ou MSM do inglês). 

Nossos órgãos públicos, como sempre, logo em seguida,  tentaram "tapar o sol com a peneira". 

Com todas as letras é mais uma incompetência governamental na área da Saúde. 

É nova "goleada" que o País toma, anonimamente. 

Veja o Relatório GAP na íntegra aqui e tire suas próprias conclusões. 

Nesse grupo há ainda consequências muito mais danosas, por "tabela".  Nesse grupo o HPV, papilomavírus, por exemplo,  é a principal causa de câncer anal, igualzinho ao câncer de colo nas mulheres. Isso sem contar a crescente incidência de sífilis, verificada até nos consultórios particulares. 

No entanto, no caso do HPV, existe prevenção primária, além do sexo seguro. Tem vacina! 
Mas o Brasil, também na contra-mão do resto do mundo,  iniciou um programa de vacinação tímido contra o HPV, que contempla apenas meninas em idade escolar bastante reduzida. 

Esqueceu-se dos meninos e dos jovens de ambos os sexos. 

A vacinação, tal como no resto do mundo, deveria imediatamente cobrir essa população, pelo SUS, não se esquecer do sexo masculino. 

No mundo uma dose de vacina sai por 5 dólares.  Não vou me alongar nos "rios de dinheiro" que nosso desgoverno gasta em outras coisas. É uma redundância nauseante. 

Em agosto vou participar do 29th International Papillomavirus Conference em Seattle nos Estados Unidos. Grandes novidades científicas devem ser anunciadas e grandes avanços em saúde pública pelo mundo. 

Do Brasil o que levamos?  Bem do Brasil, não há muito que se falar... Deveremos ficar quietinhos, como já vi pessoalmente acontecer. 

Tenha uma ideia do que será o congresso de HPV de Seattle

EM TEMPO  -  No desastre criminoso do voo da Malaysia Airlines sobre o leste da Ucrânia estavam quase 100 pessoas viajando para um congresso internacional de HIV/AIDS em Melbourne na Austrália, incluindo grandes pesquisadores

Veja abaixo a matéria da TIME


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Male genital lesions - Springer



Tenho a satisfação de compartilhar uma alegria. Nosso livro, em conjunto com Dr. Alberto Rosenblatt e Dr.Walter Belda Jr., vem tendo enorme sucesso no exterior, tanto como e-book e na versão impressa. Abaixo uma revisão/comentário sobre o mesmo:



From the reviews:

“This comprehensive review of dermatological lesions of the male external genitalia is
unique in that it covers embryology, anatomy, nonmalignant and malignant lesions. …
Although targeted at urologists and dermatologists, this book also would help primary care
providers with patient care. Urologists and dermatologists, as well as residents in these fields,
would benefit having this as a guide. … index is excellent and the references are extensive
and current. This book should be part of the reference library of all urologists and many
dermatologists.” (Akhil K. Das, Doody’s Book Reviews, May, 2013)

sábado, 26 de abril de 2014

Infecção Urinária - dimensão do problema

As infecções urinárias, muitas vezes encaradas como um problema banal no sistema de saúde tem grande importância.
Em primeiro lugar pelo sofrimento em maior ou menor grau de quem as apresenta, notadamente as mulheres, vítimas mais frequentes da doença. 
Dados apontam que essa infecção, a mais comum na raça humana, responde por 15% de todas as prescrições de antibióticos nos Estados Unidos, que resultam num custo entre 1,6 a 2,5 milhões de dólares anuais, naquele país. Contados todos os custos a soma ultrapassa 1 bilhão de dólares.
Embora com um índice raro de complicações mais sérias, ainda assim, elas geram 100.000 hospitalizações anuais (em geral por pielonefrite, infecção que se estende até o rim). 

Nas mulheres, o ônus é maior, gerando perdas não contabilizadas em termos de dias perdidos em suas atividades e produtividade. Mesmo bem tratada a infecção nas mulheres podem reaparecer em 25% das pessoas num espaço de 6 meses (uma nova infecção) ou em até 44% no período de um ano inteiro após o primeiro episódio. 

Outro grande problema é a automedicação, geralmente errada, em termos de medicação, tempo de duração, etc.

Esses e outros problemas estão sendo discutidos em um encontro agora, manhã do dia 26 de abril de 2014, em Buenos Aires, Argentina no Uro-Vaxom Summit em sua segunda versão na América Latina (a primeira foi no Peru em 2012). Participam médicos de todo o continente, incluindo o México e palestrantes da Inglaterra, Alemanha, Suécia, Itália e Hungria entre outros. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Próstata e problemas de ereção

Há algum tempo a relação entre problemas na próstata e problemas de ereção tinham uma relação meio nebulosa, não muito bem explicada. 

É lógico que de longa data se sabia que: 1- cirurgias de próstata poderiam afetar a capacidade de ereção; 2- tratamentos para câncer de próstata (sem cirurgia), baseados em medicamentos e radioterapia também podiam afetar a ereção; 3-  graves infecções de próstata (as prostatites) poderiam afetar a ereção (clinica e psicologicamente). 

Só não se sabia exatamente se um crescimento benigno, a hiperplasia benigna da próstata, que ocorrem em graus variáveis em todos os homens  depois dos 40 anos, e não tem nada a ver com câncer, poderia ou não afetar diretamente a ereção. 

Hoje isso está bem estabelecido.  A hiperplasia benigna, tem, entre alguns fatores que a causam, a diminuição da irrigação sanguínea de toda a região. O mesmo problema envolvido na ereção masculina. 

Fato é que vários e vários estudos recentes tem demonstrado que o uso de pequenas doses diárias de medicamentos facilitadores da ereção, que melhorar o aporte de sangue, também melhoram os sintomas da próstata crescida, Aqui falamos mais especificamente da Tadalafila de 5 mg diariamente. 

Um desses estudos recente envolveu mais de 600 homens asiáticos acompanhados por 12 semanas, em dois grupos, um recebendo a droga e outro apenas o placebo. O resultado foi extremamente favorável ao uso do medicamento. 

No exterior já se estuda o lançamento de drogas combinadas com atuação nos dois problemas ao mesmo tempo. 

Ref.Tadalafil 5 mg once-daily therapy for men with lower urinary tract symptoms suggestive of benign prostatic hyperplasia: Results from a randomized, double-blind, placebo-controlled trial carried out in Japan and Korea.  Takeda M, Yokoyama O, Lee SW, Murakami M, Morisaki Y, Viktrup L.  Int J Urol. 2014 Feb 27. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Embolização da próstata - sensacionalismo

Um do grandes problemas por que passa o  país é a confiabilidade das notícias que recebemos e mesmo a falta de sincronia de alguns órgãos públicos.
É o caso da embolização da próstata, que teve matéria publicada em grande jornal com uma série de incorreções e com a ideia de ser um "ovo de Colombo".
Abaixo a nota oficial da Sociedade Brasileira de Urologia veiculada hoje dia 15 de janeiro de 2014. É contundente, mas é bem clara para quem acompanha e estuda a especialidade.



NOTA OFICIAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA

PARECER DA SBU SOBRE EMBOLIZAÇÃO PROSTÁTICA:

Em 28 de novembro de 2013, através do parecer 29/13 (1), o Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou o procedimento denominado “Embolização Seletiva das Artérias da Próstata” como opção terapêutica em pacientes portadores de Hiperplasia Prostática Benigna (HPB).

Houve grande veiculação do assunto em órgãos da imprensa, não sendo apresentado nenhum posicionamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) nestas matérias publicadas.

Desta forma, cabe esclarecer alguns pontos importantes sobre o assunto:
I – LITERATURA MÉDICA E EMBASAMENTO CIENTÍFICO
  • Ao contrário do que foi vinculado na imprensa, a embolização seletiva das artérias da próstata (ESAP) não é uma técnica desenvolvida exclusivamente por médicos brasileiros. Ela já é realizada há muitos anos para tratamento de sangramento maciço tanto da próstata quanto da bexiga.
  • O primeiro relato de evidências de melhora dos sintomas urinários de esvaziamento após embolização arterial seletiva foi feito em 2000 em um paciente tratado por hematúria maciça, porém com seguimento de somente um ano (2).
  • Em 2010 foi publicado um estudo realizado por médicos brasileiros apresentando resultados do tratamento por embolização em apenas dois pacientes (3) Este estudo avaliou somente a redução do volume da próstata, não obtendo os dados sobre resultados clínicos, como escore de sintomas prostáticos (IPSS), qualidade de vida (QOL), fluxo urinário, disfunção sexual e volume residual. Posteriormente o mesmo grupo publicou experiência em 11 pacientes com retenção urinária com resultados preliminares satisfatórios.
  • A maior experiência publicada sobre a técnica foi publicada por um grupo português em 2013 (4). Este estudo avaliou retrospectivamente o resultado da técnica em 238 pacientes comsintomatologia moderada a importante após falha terapia medicamentosa, com seguimento médio de 10 meses. Foram avaliados escore de sintomas (IPSS), qualidade de vida, função sexual (IIEF), urofluxometria, volume prostático e PSA. Houve melhora de parâmetros clínicos, embora pouca melhora nos parâmetros da urofluxometria. Importante ressaltar que apenas 89, 47, 21, 12 e 8 pacientes apresentavam seguimento de 12, 18, 24, 30 e 36 meses, respectivamente.
  • Pesquisa clínica em fase I/II a respeito dos resultados e segurança da técnica está sendo conduzida nos EUA em parceria com o FDA (NCT01924988). Este estudo tem estimativa de término em 2019.
Desta forma, não há na literatura médica estudos prospectivos com alto nível de evidência de demonstrem com eficácia e a segurança da técnica. Todos os dados disponíveis proveem de experiência limitada a poucos centros no mundo, com seguimento muito curto em um número limitado de pacientes. Estes resultados ainda não foram comprovados por estudos randomizados comparativos com a técnica padrão (RTU), nem com grande número de casos que possa, nos fornecer base científica confiável para sua utilização em larga escala, sendo, portanto, realizados no momento exclusivamente de maneira experimental.
II – POSIÇÃO DE SOCIEDADES DE UROLOGIA OU ÓRGÃOS GOVERNAMENTAIS
  • Baseadas em estudos de longo seguimento, randomizados, de alto nível de evidência científica, a ESAP não é recomendada como tratamento em pacientes com HPB em nenhuma circunstância por Sociedades de Urologia, como a Sociedade Brasileira de Urologia, Associação Americana de Urologia e Associação Europeia de Urologia.
  • Recente recomendação da Associação Australiana e Neo-Zelandeza de Urologia recomenda que a ESAP deve ser realizada apenas de forma experimental (5).
  • Recente diretriz do “National Institute of Health Care Excellence”, órgão governamental do Reino Unido, determinou que a ESAP deve ser realizada somente de forma experimental, sempre por equipe multidisciplinar envolvendo urologista e radiologista (6).

III – PARECER DO CFM
  • A SBU não foi consultada em nenhum momento pelo CFM durante a avaliação do processo de aprovação desta nova técnica.
  • O parecer do CFM indica que a ESAP foi definida como de alto risco e complexidade, devendo ser avaliada por 5 anos para que seja plenamente autorizada.
  • O parecer não foi baseado em estudos com alto nível de evidência científica que demonstrem a eficácia e segurança da técnica.
  • Após entendimento da SBU, o CFM realizará em fevereiro de 2014 reunião com a Sociedade onde rediscutirá o tema. A SBU apresentará os estudos e materiais a respeito mostrando que é preciso ainda estudar o procedimento até que sua eficácia e segurança sejam definitivamente comprovadas.
Pelo exposto, a SBU indica que a ESAP não deve ser ainda considerada opção terapêutica em pacientes com HPB, como já transpareceu em reportagens veiculadas nos canais jornalísticos. Seu emprego deve ser restrito a pesquisa clínica até que sua eficácia e segurança sejam definitivamente comprovados.
REFERÊNCIAS
1. CFM. Embolização de artérias prostáticas. 2013;http://www.portalmedico.org.br/brareceres/CFM/2013/29_2013.pdf. Accessed 01/12/2014, 2014.
2. DeMeritt JS, Elmasri FF, Esposito MP, Rosenberg GS. Relief of benign prostatic hyperplasia-related bladder outlet obstruction after transarterial polyvinyl alcohol prostate embolization. Journal of vascular and interventional radiology : JVIR. Jun 2000;11(6):767-770.
3. Carnevale FC, Antunes AA, da Motta Leal Filho JM, et al. Prostatic artery embolization as a primary treatment for benign prostatic hyperplasia: preliminary results in two patients. Cardiovascular and interventional radiology. Apr 2010;33(2):355-361.
4. Pisco JM, Rio Tinto H, Campos Pinheiro L, et al. Embolisation of prostatic arteries as treatment of moderate to severe lower urinary symptoms (LUTS) secondary to benign hyperplasia: results of short- and mid-term follow-up. European radiology. Sep 2013;23(9):2561-2572.
5. USANZ. Position Statement on Prostatic Arterial Embolization for the Treatment of Lower Urinary Tract Symptoms due to Benign Prostatic Hyperplasia 2013;http://www.usanz.org.au/uploads/29168/ufiles/LUTS_SAG_Position_Statement_on_PAE_Final.pdf. Accessed 01/12/2014, 2014.
6. NICE. Prostate artery embolisation for benign prostatic hyperplasia. 2013; guidance.nice.org.uk/ipg453. Accessed 01/12/2014, 2014.



Sociedade Brasileira de Urologia






sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Pedra nos rins e dieta

Os cálculos urinários, as famosas pedras nos rins (ou também litíase urinária), são um problema tão antigo quanto o próprio homem. E houve época em que esse problema já foi bem pior. Na idade média e renascença eram comuns grandes cálculos que se formavam ou iam parar na bexiga, por problemas nutricionais e falta de assistência e conhecimentos médicos abrangentes. 

Hoje quando um cálculo ganha a bexiga, o problema está praticamente resolvido, porque sua eliminação é quase totalmente certa e rápida, sem grandes traumas. 

A dor causada pelos cálculos é originada pela obstrução ao fluxo da urina. Os rins produzem urina constantemente e essa urina é transportada por dois tubos com movimentação rítmica até a bexiga. Os tubos, conhecidos com ureteres, são finos e além disso apresentam alguns pontos de estrangulamento natural, quando cruzam algumas artérias e veias, além da junção no rim e na bexiga, locais em que os cálculos podem parar e motivar uma intervenção médica para sua retirada. 

Os cálculos podem ou não se acompanhar de infecção.

Algumas perguntas e mitos são frequentes em relação ao assunto. 

A primeira coisa que se deve saber sobre os cálculos é que eles não são sempre iguais. Há um grande variedade de substâncias na sua composição e diferentes causas para a sua formação. Igualmente o tratamento dos cálculos não é o mesmo para todas as pessoas. 

A dieta pode ou não ter influência na formação dos cálculos. Para saber se ela pode influenciar a prevenção de novos cálculos são necessários testes de laboratório para analisar os diversos componentes potenciais dos cálculos. Nem só de cálcio são formados os cálculos. Geralmente o paciente com cálculos deverá observar a ingestão de menor quantidade de sal, diminuir o consumo de proteína  animal, as vezes os alimentos com cálcio e oxalato. Em alguns casos só a dieta não é suficiente e há necessidade de medicamentos. 

Mesmo nos cálculos com predominância do cálculo a dieta pobre nesse elemento pode não evitar a eliminação de grandes quantidades de cálcio na urina. Novamente os testes laboratoriais são fundamentais na orientação disso. Evidentemente que nesse meio tempo os suplementos e vitaminas contendo cálcio deverão ser evitados (sobrecarga desnecessária!).

Os alimentos que mais contém cálcio são os produtos lactéos (leite, queijos, sorvete e iogurtes). Mas ele também está presente em grandes quantidades nas sardinhas, salmão, ostras e no tofu. Outros alimentos são "enriquecidos" com cálcio como cereais e outros alimentos industrializados. Não se pode esquecer que há uma outra ponta da saúde pública e geral em que as pessoas perdem muito cálcio e tem osteoporose, falta de exposição solar, etc.  Vários medicamentos, de diversos usos e indicações também podem ter grandes quantidades de cálcio na sua formulação química. 

A osteoporose em dietas restritivas de cálcio de longa duração é quase certa. Ela implica em perda óssea e facilidade crescente de fraturas com o avançar da idade da pessoa. Nessa situação o nutricionista pode ser fundamental para equilibrar a dieta ideal. 

O oxalato é outro vilão na formação dos cálculos.  Mas nem sempre há necessidade de limitar a sua ingestão. Muitas vezes isso não só não é necessário como também pode não trazer nenhum benefício. Quando a restrição é indicada o paciente deve ficar longe do espinafre, ruibarbo, beterraba, morangos, farelo de trigo, nozes, manteigas em geral, nabo, pepino, tomate, entre outros. 

O sal também é um inimigo de quem tem cálculos. Ele por si só faz aumentar muito, quando em excesso, a eliminação do cálcio na urina. O consumo em excesso do sal alimentar pode inclusive antagonizar ou anular o efeito do diurético tiazídico,  prescrito para ajudar em alguns tipos de calculose urinária.

De outra maneira alguns alimentos, interessantemente, protegem contra a formação de cálculos urinários, citando-se entre outros: arroz, batatas (exceto batata doce), clara de ovo, margarina, óleos vegetais, mel, maionese, bolachas de água e sal, frutas como abacaxi, uva, melancia, pera e cereja 

Vitaminas e cálculos -  aqui entra um grande problema na atualidade. Não apenas as vitaminas, mas os complementos alimentares e os isotônicos. Todos são tidos como "saudáveis". Redondo engano. Na grande maioria das situações o seu uso expõe  a pessoa a uma sobrecarga totalmente desnecessária aos rins da pessoa na sua eliminação. A indicação do uso dessas substâncias deve ser criteriosa e diante de real necessidade. Das vitaminas, praticamente todas as do complexo B não tem efeito na formação de cálculos. Já as vitaminas D e C, óleo de fígado de peixe e todos os suplementos alimentares tem uma influência grande a favor da formação de cálculos. 

Por fim e como item mais importante está a ingestão de líquidos, normalmente a água. Não há um número mágico. A melhor maneira de saber se a quantidade de líquido ingerido está adequada é a cor da urina que deve ser de um amarelo bem clarinho e nunca um amarelo escuro ou forte. A necessidade de água aumenta com o clima quente e atividade física, para compensar o metabolismo aumentado, suor e perdas insensíveis pela respiração. 

Raramente há necessidade de escolher o tipo de água a ser consumido. Poucos lugares no mundo tem águas com restrição em relação a sua composição eventualmente rica em minerais que poderiam atuar desfavoravelmente no paciente propenso a formar cálculos. 

Se você teve um cálculo lembre-se de alguns fatos importantes: analisar a composição do cálculo recuperado (coar a urina quando tiver crise renal) é fundamental;  exames que compõem o seu perfil metabólico são também muito importantes. 

Metade das pessoas que tiveram um cálculo sem medidas preventivas e estudo adequado irão apresentar novos cálculos num prazo máximo de 5 a 10 anos.

Consulte seu médico.  



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Vitamina D e exposição solar - 8 ou 80

Há algum tempo em nossa prática médica incluímos na avaliação geral de saúde dos homens alguns exames adicionais em virtude do papel importante de determinadas substâncias na nossa saúde geral.

Uma  delas é a Vitamina D. Seu papel vai muito além da fixação do cálcio nos ossos; ela está implicada em praticamente uma centena de funções do nosso corpo. 

A vitamina D depende da ingestão de substrato (fontes para sua elaboração) e exposição solar regular para sua ativação na pele, transformando a molécula inativa em molécula funcional, ativa. 

Com a neurose do câncer de pele isso gerou uma catástrofe nessa vitamina na população, sobretudo das grandes cidades. 

Isso foi admitido nesses dias por pesquisadores do King's College de Londres no transcurso do 68o. Congresso Brasileiro de Dermatologia realizado em Brasília entre 7 e 10 de outubro. 

Entre as ações não-clássicas da Vitamina D no organismo citamos:

- Resistência às infecções - a vitamina atua diretamente no sistema imune nesse aspecto e também, quando falta, na piora das reações alérgicas, amigdalites frequentes, rinites, etc.

- Diferenciação das células normais e cancerígenas - também por sua participação no sistema imunológico, notadamente nos cânceres de mama, colon, próstata e pâncreas, entre outros. 

- Envolvimento na depressão e esquizofrenia

- Doenças de mal absorção intestinal ( Crohn, Whipple, fibrose cística, doença celíaca, doenças hepáticas)

- Fraqueza muscular

- Doenças auto-imunes

- Infarto do miocárdio (adultos com deficiência de vitamina D tem 50% mais chances de infartar). 

- Prevenção do risco de desenvolver diabetes tipo 2

Para finalizar esse post a Vitamina D é conhecida como um dos mais antigos hormônios. 

Desde a evolução dos organismos unicelulares, que se beneficiavam da energia solar fotossintetizando açúcares, eles também sintetizavam vitamina D. Há relatos de que uma espécie de fitoplancton, existente há mais de 500 milhões de anos e encontrado no mar dos Sargaços, no Atlântico, tem na sua composição corpórea mais de 1% em provitamina D2 (o ergosterol). 

As fontes naturais de vitamina D, na alimentação estão principalmente na gordura dos peixes. Aqueles que não a armazenam na sua carne fazem-no no seu fígado (de onde vem o uso no passado do óleo de fígado de bacalhau, como um importante complemento alimentar). 

Outra fonte são os laticínios enriquecidos com a vitamina e o cálcio. 
Dosar a vitamina D deve, portanto, fazer parte da avaliação rotineira de nossa saúde. 
E tomar sol comedidamente também é muito saudável. 


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

HPV hoje – últimos estudos publicados na literatura médica.

FUMO

Fumo prolonga a persistência da infecção oral pelo HPV e retarda o seu clareamento (cura) no homem é o que mostra artigo bastante recente realizado com homens finlandeses durante um período de acompanhamento de 7 anos.

Eur J Clin Microbiol Infect Dis. 2013 Sep 13. [Epub ahead of print]
Smoking increases oral HPV persistence among men: 7-year follow-up study.
Kero K, Rautava J, Syrjänen K, Willberg J, Grenman S, Syrjänen S.  Department of Obstetrics and Gynecology, Turku University Hospital, University of Turku, P.O. Box 52, 20521, Turku, Finland.


FATORES ENVOLVIDOS NA ELIMINAÇÃO DO VÍRUS

Estudo finlandês de 6 anos mostra alguns possíveis fatores que podem acelerar a eliminação do HPV oral em gestantes:  1) ter uma nova gestação após a contaminação; 2) manter o mesmo parceiro;  3) Antecedente de reações alérgicas ou estado atópico; 4) idade maior. 

Por outro lado podem retardar o clareamento  (eliminação) do vírus: 1) antecedente de DST (doença sexualmente transmissível) prévia;  2) gestação prévia.

PLoS One. 2013;8(1):e53413. doi: 10.1371/journal.pone.0053413. Epub 2013 Jan 3.
Genotype-specific incidence and clearance of human papillomavirus in oral mucosa of women: a six-year follow-up study. Louvanto K, Rautava J, Willberg J, Wideman L, Syrjänen K, Grénman S, Syrjänen S.
Department of Oral Pathology, Institute of Dentistry, Faculty of Medicine and Medicity Research Laboratory, University of Turku, Turku, Finland.

TIPOS DE HPV NA AMÉRICA LATINA

América Latina   

Estudo realizado na Colômbia  confirma a distribuição dos genótipos mais comuns nas verrugas genitais (HPV 6 e 11).  

Co-infecção dos dois tipos de HPV no mesmo pacientet (coexistência dos tipos  6 +11) gira em torno de 10-12%,  enquanto a co-infecção entre todos os vários tipos de vírus (pelo menos dois) ocorreu em torno de um quarto dos pacientes estudados (25%). 

O HPV 16 foi o terceiro mais frequente.

Int J STD AIDS. 2013 Jul;24(7):567-72. doi: 10.1177/0956462412474538. Epub 2013 Jul 19.

Human papillomavirus genotypes in genital warts in Latin America: a cross-sectional study in Bogota, Colombia. Hernandez-Suarez G, Pineros M, Vargas JC, Orjuela L, Hernandez F, Peroza C, Torres D, Escobar A, Perez G. Fundacion para la Investigación y el Desarrollo (FID).

quarta-feira, 31 de julho de 2013

DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS, UM EXEMPLO FIEL DA SAÚDE BRASILEIRA

Entrevista concedida ao editor Giuliano Agmont da Revista “HPV News”, último número, a respeito de um estudo sobre doenças sexualmente transmissíveis em seis capitais brasileiras, publicado em 2008, com a cooperação da Alemanha, que gerou um livro com tiragem de 4.000 exemplares para todo o país:

PREVALÊNCIAS E FREQUENCIAS RELATIVAS DE DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS EM POPULAÇÕES SELECIONADAS DE SEIS CAPITAIS BRASILEIRAS.  Programa Nacional DST/AIDS / MS. 2008.
Sob os auspícios da agência  GTZ –Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ) da Alemanha



1 Qual a importância desse levantamento?

Homero Guidi (HG):

Num país em que os dados de saúde são muito precários, salvo algumas exceções honrosas, qualquer levantamento com metodologia séria é bem vinda.  Na realidade a falta de dados na Saúde Brasileira constitui um dos “anti-pilares” do nosso sistema: como planejar e investir se não sabemos no quê, em quanto, de que maneira, onde, etc. Para o leigo fica fácil explicar isso. Tomemos um exemplo de instituição de saúde de excelência no país:  o Incor, Instituto do Coração de São Paulo. O problema de saúde do país não seria resolvido se toda cidade média ou grande no Brasil contasse com um Incor, exatamente igual ao original. O motivo é obvio: nem só de doenças cardíacas carece a saúde do brasileiro. Há desde as verminoses, as hérnias, acidentes, apendicites  e doenças sexualmente transmissíveis (DST) até o câncer. 

Onde, como  e quanto investir?

Se considerarmos outros países ficamos muito atrás nesse ponto.  Tomemos por exemplo os países escandinavos que tem o histórico de saúde de toda a população e, hoje, se dão ao luxo de estudar um determinado assunto levantando dados de toda a população nos últimos 50 anos.  Sim não são cinco, são 50 anos!. A primeira desculpa que vem a mente de todos é a questão do custo dessa organização toda. Balela pura. O primeiro custo da organização é o comprometimento de todos que querem  ser organizados. Isso vai muito além do recurso financeiro propriamente dito.  

Temos um sistema econômico e financeiro brasileiro eficientíssimo nos mesmos moldes – instituições governamentais e privadas, todas unidas e engrenadas para funcionar perante o cidadão e o seu CPF.  Nenhum calote passa despercebido... Nos países nórdicos o indivíduo recebe um “CPF” único para o resto de sua vida representado pela sequencia numérica da sua data de nascimento e uma numeração que identifica a ordem de registro do mesmo. Isso apenas para começar. Todas as doenças são notificadas e registradas e sempre que necessário sabe-se exatamente em que tipo de recurso de saúde há necessidade de cada centavo disponível para o investimento. Onde há mais e menos necessidade?  

leia o texto completo clicando abaixo

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Importação de Médicos e o Brasil

Lastimo profundamente que um assunto desses esteja servindo de cortina de fumaça para outros problemas mais sérios do País. Dedo de marketeiro, com certeza. 

Lastimo tratar disso num local e numa mídia que, por carinho, dissemino o pouco que sei ou vejo. Mas existe um conceito de cidadania que não fica quieto nesse momento.

Lastimo porque sou um médico, que com trinta e tantos anos, quase quarenta, vivendo no meio da "Saúde", não é míope. Todos esses anos não nos deixam, a ninguém, ter uma visão errada do que acontece, nem se eu fosse um burro completo ou um tanto deficiente mental (que, aliás, pode ser deficitário em tudo, menos ser burro, muitos são mais inteligentes do que muitos dos "normais", registre-se). 

Se a Saúde no Brasil vai mal, por falta de médicos, porque a Educação vai mal com sobra de professores???

Não precisa ser gênio para responder isso. 

O denominador é comum aos dois problemas. 

Não se dissociam recursos humanos de recursos materiais em Saúde, em Educação, em nenhuma atividade humana. 

Não adianta colocar um médico excelente num local sem instrumentos, não adianta construir prédios enormes vazios. Não adianta equipar com equipamentos do  bom e  do melhor prédios caindo, ou prédios novos sem que neles estejam pessoas que os saiba manejar e operar ou que para isso recebam  R$ 1.800 reais por mês. E por ai vai.

O que seria de um Prof. Jatene no Acre, sem uma boa UTI, sem um bom clínico, sem um centro cirúrgico.
Preciso me alongar na analogia?  Certamente que não. 

Para um verão são necessárias muitas andorinhas, sol e várias outras coisas...

Até num alimento na cozinha deve existir uma harmonia e equilíbrio ao fazê-lo. 
Não adianta encharcar o alimento com o melhor azeite português  ou servir o melhor vinho francês com pão seco e barato. Exagerar no sal ou na farinha...

Esse assunto todo me enoja, desculpem os leitores, os pacientes. 

Falta ao Brasil, faltam aos brasileiros, vergonha na cara de muita gente, sobretudo aos políticos, que deveriam ter apenas "uma" cara. Faltam-nos honestidade, comprometimento com a causa pública, verdade, faltam-nos menos falcatruas, menos negociatas, falta-nos vontade política legítima, falta trabalhar mais e fazer menos marketing.

Em toda a história, antiga e moderna, governantes sábios se serviram de notáveis nas diversas áreas da coisa pública. Conselheiros sábios.  

Aqui a Presidente da República do Brasil, no século XXI,  se reúne com seu assessor de marketing...

Isso dá bem a dimensão do seu respeito para com o povo, para conosco, os brasileiros. 
E ainda isso é dado a conhecer publicamente, com muita naturalidade.

Tudo o que nos falta não pode ser importado.
Tudo o que nos falta não pode ser comprado.


terça-feira, 2 de julho de 2013

Finalmente meninas brasileiras serão vacinadas em 2014 pelo sistema público.

Talvez o clamor das ruas esteja produzindo mais do que objetivos diretos.

Indiretamente os governantes acordam de sua letargia e governam.

Há muito tempo não fazem isso.  Só engavetam e fazem conchavos. 

Notícia a ser comemorada:  Finalmente no início do ano letivo de 2014 meninas brasileiras de 10 e 11 anos vão receber a vacina quadrivalente contra o HPV através do sistema público.

É um começo. 

Mas é pouco!!!

É pouco igualmente quando falamos dos limites de idade. No mundo todo isso não existe, mesmo que nas outras faixas, de pessoas acima de 26 ou 29 anos a indicação em receituário seja reconhecida oficialmente. 

Há poucos dias houve um recuo em relação a isso relativamente às mulheres de mais idade...

Falamos disso, há muito tempo, muitas clínicas de vacinação, igualmente com médicos esclarecidos e atualizados, não titubeiam em acolher a indicação da vacinação fora do "limite de idade"...

Vacinar as meninas de 10 e 11 anos é um começo. 

Mas é pouco diante de tudo o que já se sabe pelo mundo todo, não só de meninas, mas de meninos, de moças e rapazes, de senhoras e senhores... São praticamente 8 anos de uso!!! Quase duas décadas de pesquisas, em todas as fases e seguimentos de mais de década. 

É passo tímido do Ministério da Saúde. 

Só não há timidez nos gastos nesse país quando eles são políticos, os PACs que andam empacados, nos superfaturamentos, nos estádios. 
No perdão de dívidas de republiquetas e ditaduras africanas...

Francamente...

Nem com altos governantes sentindo na pele as consequências dos malefícios do HPV e seus tumores relacionados, a atitude não é mais ampla, não é mais larga. 

Como Urologista, que "vive" e estuda o problema do HPV, fica aqui o repúdio por medida tão tímida, excluindo o sexo masculino de algo já comprovado. 

Qual é o motivo da discriminação?  Técnico-científico?  Nenhum!  Orçamentário?  Nem pensem em invocar isso...

O momento é mesmo de protesto. 
De insatisfação. 
Se não falta a medida, quando vem, vem pela metade! 

Notícia original :

http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-07-01/meninas-de-10-e-11-anos-receberao-vacina-contra-hpv-no-inicio-do-ano-letivo-de-2014



terça-feira, 18 de junho de 2013

Vacina do HPV - 7 anos. Resultados pelo mundo e num Brasil insatisfeito.

Nesse final de semana, 101 médicos dos cinco continentes, experts em HPV se reuniram em Amsterdan, Holanda. 
Estive na delegação brasileira como único urologista, os demais foram 3 ginecologistas, 2 pediatras, 1 proctologista e 2 infectologistas. 

São sete anos já do lançamento da vacina contra o HPV. Experiências muito boas na Austrália, no Reino Unido, Canadá, Espanha, Estados Unidos e vários outros países, pioneiros na imunização de seus cidadãos, na sua grande maioria através de programas públicos baseados no sistema escolar. Em quase todos os países a vacina está reconhecida e licenciada

Brasil e China na lanterna dessa história...

Aqui nada de inserção no programa público (nem com a oferta da OPAS de subsidiar 50%). Na China com quase 2 bilhões de habitantes, nem registro da dita cuja. O que é um absurdo total. 

Maior país da América Latina, estamos atrás da Colômbia, do Chile, Venezuela e Paraguay (sim, você não leu errado PARAGUAY). Esses já estão vacinando suas meninas e meninos. Programas baseados na escola.

No mundo todo há um esforço global contra o câncer do colo uterino (que voltou a subir nos Estados Unidos e outros países europeus) e também  as verrugas genitais, os dois maiores pesadelos desses vírus.

Mesmo com o custo particular de R$ 900, das 3 doses que compõem a imunização, esse valor  fica muito abaixo do custo de várias colposcopias, peniscopias, cauterizações exames e outros procedimentos médicos múltiplos necessários, face à ação desses vírus. Isso sem contar o "burden effect" maior, os transtornos psicológicos na vida pessoal ou do casal atingido pelo HPV.

R$330 a dose na clínica particular.

Algo em torno de US$ 14 a dose no sistema público (via subsídio da OPAS 50% / governo 50%). Evidentemente sem "jabá" ou "contribuição de campanha para o partido"....

E aí estão os estádios..... Pane et circus!

As vaias e os protestos por todo o País.

O ex-presidente LULA, pernambucano tão dedicado, deveria estudar um pouquinho, ou só conversar (porque ler é chato) sobre Recife, a capital do HPV no Brasil, capital do câncer de colo, que mata mais do que o de mama, entre as recifenses e pernambucanas.

Por sinal o HPV também vem fazendo crescer muito os cânceres de orofaringe. Sim, eles estão lá na boca e na faringe, nas cordas vocais. Esse tipo de câncer vinha diminuindo com a eliminação do fumo e do álcool em excesso, até então os seus maiores fatores causais.  Diminuiu até um patamar e depois voltou a crescer pelo sexo oral e pelo HPV. 

Mantendo uma pessoa, os três, ou dois fatores, é como caminhar para o abismo...

Os HPV's também estão causando o câncer anal, que também cresce em homens e mulheres, pelo mundo todo, na forma inicial (que chamamos de lesões precursoras)  e também na sua forma avançada.

Na Austrália a mulher do ministro da Saúde teve um câncer de colo do útero há alguns anos. Foi a público e portou uma bandeira na cruzada nacional  contra o HPV. Teve coragem, junto com seu marido e o gabinete australiano, como figuras públicas nobres e honestas. Ela de assumir sua doença pública e transparentemente a sua doença e estimular meninas e meninos a mudarem o seu potencial destino. O gabinete em assumir uma ação de saúde pública sem maiores discussões sobre a precedência do ovo ou da galinha. É o que se espera de um político legítimo, comprometido com o povo e seu país.

Já aqui no Brasil, só a Ana Maria Braga teve coragem suficiente de alertar sobre um problema delicado, já um câncer e sua causa, anônimo e tão comum.... Mas parou por aí.

É pena. Afinal vivemos de copas, futebol, escândalos, Bolsas de todo tipo, incompetência administrativa e eleições que começam no meio dos mandatos.

Nossos políticos são eleitos e nos primeiros 2 anos fazem uma caça as bruxas, rearranjam os cargos para acomodar os conluios e acertos, mudam as políticas e pessoas, sem o menor senso técnico, muitas vezes com boçais que nada entendem do órgão ou assunto que vão dirigir. Administram escândalos e resultados pífios, vergonhosos. Ficam justificando a falta de resultados e as promessas não cumpridas.

Depois, nos dois últimos anos dos mandatos, passam apenas a pensar na próxima eleição e a administração simplesmente não existe mais ou serve apenas e é dirigida apenas a "capitalizar" para o próximo pleito O que já não tinha um mínimo de planejamento técnico e de competência específica vai totalmente pelos ares. O que vale é o voto, os índices de popularidade e a propaganda e artifícios dos marketeiros de plantão. Aí entra a Petrobrás, a Caixa, o Banco do Brasil a enfiar dinheiro na propaganda, nos times de futebol, nos sorteios e anúncios grandiosos. Franco, Salazar, Hitler, Stalin, Brejenev, Getúlio e outros ditadores morrem de inveja lá nos infernos da "grande máquina de propaganda" dos "camaradas" atuais, acoplado a um assistencialismo sem limites. 

Que tal um Bolsa-Vacina, uma Bolsa-Saúde?

Isso tudo que escrevi é longo, eu sei, mas não podemos mais continuar a PENSAR E AGIR, lendo só notinhas de 5 ou 10 linhas, 5 ou 10 minutos. Isso é para quem não pensa, gosta do "Jornal Nacional" e outros semelhantes.

Precisa enfiar a b. no banquinho e ler e refletir. A vida não é um SMS! Nem nossos problemas serão resolvidos num torpedo ou chamada no celular.

Os protestos que estão a acontecer devem, espero, tomar um rumo inteligente.
(Por sinal, cadê o Sr. Haddad? O Metrô é da alçada do Sr. Alckimin, mas os ônibus estão sob a batuta da Prefeitura, non é vero???).

Esses 20 centavos lavaram os olhos de muita gente, dos jovens (essenciais) até gente madura e de idade que não suporta mais tudo os que estamos vendo acontecer  nesse País e que ontem saíram às ruas. 

V de Vitória, com muita reflexão!!!! E pé no chão.


Sem violência e sem depredação. Tudo que quebramos, nós mesmos vamos pagar para reconstruir.

Já temos muitos "estragos" monumentais, por todo o País, feitos pelos nossos governantes aboletados em seus(?)  palácios!  Em algum momento vão chegar essas contas!


sexta-feira, 24 de maio de 2013

NOTICIA DA AGÊNCIA REUTERS 24 MAIO 2013


Abaixo a notícia veiculada hoje pela Agência Reuters nesta sexta-feira, 24 de maio de 2013.  Chama a atenção a possibilidade de transmissão por via aérea. 




HONG KONG, 24 Mai (Reuters) - O vírus H7N9 tem capacidade de transmissão entre humanos, inclusive por via aérea, disseram nesta sexta-feira pesquisadores da Universidade de Hong Kong que estudam a nova gripe aviária.
Os cientistas relataram que três furões, o principal animal usado em pesquisas sobre a influenza humana, contraíram o H7N9 quando em contato com outros furões previamente contaminados.
Um dos três ficou numa gaiola à parte, e acabou infectado por exposição aérea.
Até agora, a Organização Mundial da Saúde (OMS) dizia não haver indícios de "transmissão sustentada entre humanos". Desde que surgiu na China, a doença já matou 36 pessoas.
"As descobertas sugerem que a possibilidade de o vírus evoluir mais para formar a base de uma futura ameaça de pandemia não pode ser excluída", disse a equipe de pesquisa, liderada pelo biólogo Yi Guan, especialista em gripes aviárias.

Os cientistas também descobriram que alguns animais contaminados não desenvolveram febre e outros sinais clínicos, indicando que infecções assintomáticas entre humanos são possíveis. Isso tornaria o vírus mais difícil de detectar e controlar.
O vírus também pode contaminar porcos, mas não tem como ser transmitido entre porcos ou deles para outros animais, segundo o estudo. Mesmo assim, a equipe pediu às autoridades para que mantenham a vigilância para evitar uma mutação que resulte em um vírus mais sério.
A OMS considerou o estudo bom, mas advertiu que as pessoas "têm de ter muito cuidado com o que está acontecendo no terreno".
"Estudos como esse são realmente úteis para aumentar o conhecimento geral, e este é muito útil para saber que, sob condições de laboratório, este vírus poderia transferir-se de pessoa para pessoa", disse o principal porta-voz da OMS, Gregory Hartl, à Reuters.
Há poucos dias, a OMS disse que o H7N9 parecia ter sido controlado na China graças a restrições a mercados aviários.
O H7N9 apresentou sintomas relativamente brandos nos furões, e todos eles se recuperaram em no máximo sete dias, segundo o estudo. Os pesquisadores disseram que os pacientes humanos que morreram tinham outras complicações de saúde.
Desde que surgiu, em março, o vírus contaminou 130 pessoas na China continental. Nenhum novo caso foi registrado desde o começo de maio.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Transplante de fezes & Bacteriúria Assintomática

Não você não leu errado. 

Transplante de fezes já estão sendo realizados. 

É uma da mais novas terapias para o tratamento de doenças inflamatórias/infecciosas intestinais graves (como por exemplo pelo Clostridium difficile multi-resistente). 

A noção de bioma humano vai se estendendo pela Medicina. Ela já existe em relação a infecção urinária crônica recorrente, notadamente nas mulheres, em que microorganismos multi-resistentes continuamente reinfectam as bexigas dessas pacientes e constituem uma doença de difícil manejo. 

Algumas cepas da Escherichia coli, o germe mais comum e prevalente nessas cistites, apresenta algumas cepas "boazinhas" em que a infecção não passa de uma colonização da bexiga, sem sintomas (Bacteriúria Assintomática). 

Nessas pacientes a cultura de urina vem positiva (exame pedido como "check up"....), a urina tipo I as vezes nem mostra leucócitos aumentados (glóbulos brancos que mostram inflamação) e a paciente não tem sintomas. 

O maior erro é o tratamento do exame.  Sim, tratar bacteriúria assintomática faz mais mal do que bem. 

Você trata o exame e não a paciente. Só existem 3 situações em que a Bacteriúria Assintomática deve ser tratada:  nas mulheres grávidas, nas crianças e quando essas pacientes vão fazer uma cirurgia ou procedimento no trato urinário. 

Na filosofia do Bioma, algumas universidades da Escandinávia (Lund, principalmente e pioneira) e outras nos Estados Unidos, estão propondo e estudando a "troca" deliberada de cepas "boazinhas" da E. coli nessas mulheres com quadros intratáveis. 

O uso indiscriminado de antibióticos seleciona bactérias multi-resistentes. Na prática clínica isso começa com o teste de sensibilidade mostrando que a bactéria existente na cultura não tem nenhum antibiótico que possa ser usado por via oral, apenas por via endovenosa ou intramuscular....

Há quase quinze ou vinte anos não se descobrem novos antibióticos!

Pense a respeito.  

Pacientes e médicos devem pensar nisso. 

Tratar uma infecção urinária pode não ser tão simples assim... 

Nem mesmo pedir exames a esmo!