Mostrando postagens com marcador Cidadania. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cidadania. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Importação de Médicos e o Brasil

Lastimo profundamente que um assunto desses esteja servindo de cortina de fumaça para outros problemas mais sérios do País. Dedo de marketeiro, com certeza. 

Lastimo tratar disso num local e numa mídia que, por carinho, dissemino o pouco que sei ou vejo. Mas existe um conceito de cidadania que não fica quieto nesse momento.

Lastimo porque sou um médico, que com trinta e tantos anos, quase quarenta, vivendo no meio da "Saúde", não é míope. Todos esses anos não nos deixam, a ninguém, ter uma visão errada do que acontece, nem se eu fosse um burro completo ou um tanto deficiente mental (que, aliás, pode ser deficitário em tudo, menos ser burro, muitos são mais inteligentes do que muitos dos "normais", registre-se). 

Se a Saúde no Brasil vai mal, por falta de médicos, porque a Educação vai mal com sobra de professores???

Não precisa ser gênio para responder isso. 

O denominador é comum aos dois problemas. 

Não se dissociam recursos humanos de recursos materiais em Saúde, em Educação, em nenhuma atividade humana. 

Não adianta colocar um médico excelente num local sem instrumentos, não adianta construir prédios enormes vazios. Não adianta equipar com equipamentos do  bom e  do melhor prédios caindo, ou prédios novos sem que neles estejam pessoas que os saiba manejar e operar ou que para isso recebam  R$ 1.800 reais por mês. E por ai vai.

O que seria de um Prof. Jatene no Acre, sem uma boa UTI, sem um bom clínico, sem um centro cirúrgico.
Preciso me alongar na analogia?  Certamente que não. 

Para um verão são necessárias muitas andorinhas, sol e várias outras coisas...

Até num alimento na cozinha deve existir uma harmonia e equilíbrio ao fazê-lo. 
Não adianta encharcar o alimento com o melhor azeite português  ou servir o melhor vinho francês com pão seco e barato. Exagerar no sal ou na farinha...

Esse assunto todo me enoja, desculpem os leitores, os pacientes. 

Falta ao Brasil, faltam aos brasileiros, vergonha na cara de muita gente, sobretudo aos políticos, que deveriam ter apenas "uma" cara. Faltam-nos honestidade, comprometimento com a causa pública, verdade, faltam-nos menos falcatruas, menos negociatas, falta-nos vontade política legítima, falta trabalhar mais e fazer menos marketing.

Em toda a história, antiga e moderna, governantes sábios se serviram de notáveis nas diversas áreas da coisa pública. Conselheiros sábios.  

Aqui a Presidente da República do Brasil, no século XXI,  se reúne com seu assessor de marketing...

Isso dá bem a dimensão do seu respeito para com o povo, para conosco, os brasileiros. 
E ainda isso é dado a conhecer publicamente, com muita naturalidade.

Tudo o que nos falta não pode ser importado.
Tudo o que nos falta não pode ser comprado.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Vacina do HPV - 7 anos. Resultados pelo mundo e num Brasil insatisfeito.

Nesse final de semana, 101 médicos dos cinco continentes, experts em HPV se reuniram em Amsterdan, Holanda. 
Estive na delegação brasileira como único urologista, os demais foram 3 ginecologistas, 2 pediatras, 1 proctologista e 2 infectologistas. 

São sete anos já do lançamento da vacina contra o HPV. Experiências muito boas na Austrália, no Reino Unido, Canadá, Espanha, Estados Unidos e vários outros países, pioneiros na imunização de seus cidadãos, na sua grande maioria através de programas públicos baseados no sistema escolar. Em quase todos os países a vacina está reconhecida e licenciada

Brasil e China na lanterna dessa história...

Aqui nada de inserção no programa público (nem com a oferta da OPAS de subsidiar 50%). Na China com quase 2 bilhões de habitantes, nem registro da dita cuja. O que é um absurdo total. 

Maior país da América Latina, estamos atrás da Colômbia, do Chile, Venezuela e Paraguay (sim, você não leu errado PARAGUAY). Esses já estão vacinando suas meninas e meninos. Programas baseados na escola.

No mundo todo há um esforço global contra o câncer do colo uterino (que voltou a subir nos Estados Unidos e outros países europeus) e também  as verrugas genitais, os dois maiores pesadelos desses vírus.

Mesmo com o custo particular de R$ 900, das 3 doses que compõem a imunização, esse valor  fica muito abaixo do custo de várias colposcopias, peniscopias, cauterizações exames e outros procedimentos médicos múltiplos necessários, face à ação desses vírus. Isso sem contar o "burden effect" maior, os transtornos psicológicos na vida pessoal ou do casal atingido pelo HPV.

R$330 a dose na clínica particular.

Algo em torno de US$ 14 a dose no sistema público (via subsídio da OPAS 50% / governo 50%). Evidentemente sem "jabá" ou "contribuição de campanha para o partido"....

E aí estão os estádios..... Pane et circus!

As vaias e os protestos por todo o País.

O ex-presidente LULA, pernambucano tão dedicado, deveria estudar um pouquinho, ou só conversar (porque ler é chato) sobre Recife, a capital do HPV no Brasil, capital do câncer de colo, que mata mais do que o de mama, entre as recifenses e pernambucanas.

Por sinal o HPV também vem fazendo crescer muito os cânceres de orofaringe. Sim, eles estão lá na boca e na faringe, nas cordas vocais. Esse tipo de câncer vinha diminuindo com a eliminação do fumo e do álcool em excesso, até então os seus maiores fatores causais.  Diminuiu até um patamar e depois voltou a crescer pelo sexo oral e pelo HPV. 

Mantendo uma pessoa, os três, ou dois fatores, é como caminhar para o abismo...

Os HPV's também estão causando o câncer anal, que também cresce em homens e mulheres, pelo mundo todo, na forma inicial (que chamamos de lesões precursoras)  e também na sua forma avançada.

Na Austrália a mulher do ministro da Saúde teve um câncer de colo do útero há alguns anos. Foi a público e portou uma bandeira na cruzada nacional  contra o HPV. Teve coragem, junto com seu marido e o gabinete australiano, como figuras públicas nobres e honestas. Ela de assumir sua doença pública e transparentemente a sua doença e estimular meninas e meninos a mudarem o seu potencial destino. O gabinete em assumir uma ação de saúde pública sem maiores discussões sobre a precedência do ovo ou da galinha. É o que se espera de um político legítimo, comprometido com o povo e seu país.

Já aqui no Brasil, só a Ana Maria Braga teve coragem suficiente de alertar sobre um problema delicado, já um câncer e sua causa, anônimo e tão comum.... Mas parou por aí.

É pena. Afinal vivemos de copas, futebol, escândalos, Bolsas de todo tipo, incompetência administrativa e eleições que começam no meio dos mandatos.

Nossos políticos são eleitos e nos primeiros 2 anos fazem uma caça as bruxas, rearranjam os cargos para acomodar os conluios e acertos, mudam as políticas e pessoas, sem o menor senso técnico, muitas vezes com boçais que nada entendem do órgão ou assunto que vão dirigir. Administram escândalos e resultados pífios, vergonhosos. Ficam justificando a falta de resultados e as promessas não cumpridas.

Depois, nos dois últimos anos dos mandatos, passam apenas a pensar na próxima eleição e a administração simplesmente não existe mais ou serve apenas e é dirigida apenas a "capitalizar" para o próximo pleito O que já não tinha um mínimo de planejamento técnico e de competência específica vai totalmente pelos ares. O que vale é o voto, os índices de popularidade e a propaganda e artifícios dos marketeiros de plantão. Aí entra a Petrobrás, a Caixa, o Banco do Brasil a enfiar dinheiro na propaganda, nos times de futebol, nos sorteios e anúncios grandiosos. Franco, Salazar, Hitler, Stalin, Brejenev, Getúlio e outros ditadores morrem de inveja lá nos infernos da "grande máquina de propaganda" dos "camaradas" atuais, acoplado a um assistencialismo sem limites. 

Que tal um Bolsa-Vacina, uma Bolsa-Saúde?

Isso tudo que escrevi é longo, eu sei, mas não podemos mais continuar a PENSAR E AGIR, lendo só notinhas de 5 ou 10 linhas, 5 ou 10 minutos. Isso é para quem não pensa, gosta do "Jornal Nacional" e outros semelhantes.

Precisa enfiar a b. no banquinho e ler e refletir. A vida não é um SMS! Nem nossos problemas serão resolvidos num torpedo ou chamada no celular.

Os protestos que estão a acontecer devem, espero, tomar um rumo inteligente.
(Por sinal, cadê o Sr. Haddad? O Metrô é da alçada do Sr. Alckimin, mas os ônibus estão sob a batuta da Prefeitura, non é vero???).

Esses 20 centavos lavaram os olhos de muita gente, dos jovens (essenciais) até gente madura e de idade que não suporta mais tudo os que estamos vendo acontecer  nesse País e que ontem saíram às ruas. 

V de Vitória, com muita reflexão!!!! E pé no chão.


Sem violência e sem depredação. Tudo que quebramos, nós mesmos vamos pagar para reconstruir.

Já temos muitos "estragos" monumentais, por todo o País, feitos pelos nossos governantes aboletados em seus(?)  palácios!  Em algum momento vão chegar essas contas!


quarta-feira, 3 de abril de 2013

HPV e Vacina - situação no Brasil

Atualmente existem duas vacinas em uso no mundo todo, inclusive no Brasil. A bivalente (contra os HPVs de alto risco 16 e 18) e a quadrivalente (contra os HPVs 6, 11, 16 e 18).

Lá fora essas vacinas têm nome comercial : Cervarix  e Gardasil. No Brasil vacinas não podem ter nome comercial. 

As vacinas tem indicação na mulher e no homem.  Toda a filosofia inicial foi combater o HPV e Câncer do colo uterino (99% desse tipo de câncer tem o HPV como causador).  

O HPV, no entanto, também causa o condiloma acuminado ou verrugas genitais, um problema bastante sério para quem o apresenta. As verrugas são contagiosas para os parceiros sexuais de ambos os sexos e também para a própria pessoa (auto-contaminação de uma lesão para novas, ao lado, geralmente em tempos diferentes - na prática "um vai e vem" de lesões). 

Para o condiloma os tipos mais envolvidos no mundo todo são o HPV 6 e 11. 

O homem é vetor do vírus.  É o transmissor potencial, embora a mulher também transmita o vírus. O meio mais fácil de transmissão é o contato sexual.  O homem transmite mais. Supondo um homem portador de lesões, a chance de transmissão  para a mulher, numa única relação, fica em torno de 60%. Já o contrário, uma mulher com lesões para um homem, numa relação única a chance fica em torno de 40%. 

Homens, portanto, se beneficiam do uso da vacina quadrivalente. 

A indicação em bula é, no aspecto profilático original, para homens entre 9 e 26 anos.

Algumas indicações, chamadas "off label", fora da bula aplicam-se em casos específicos e estão sob estudos. O efeito que está sendo estudado, mesmo em quem já teve contaminação do HPV é em relação ao bloqueio da auto-recontaminação ou contaminação com outro tipo de HPV, diferente do que a pessoa se contaminou inicialmente. Cada caso merece estudo individual e aconselhamento urológico especializado. 

No Brasil ambas as vacinas estão licenciadas e são comercializadas  para homens e mulheres.

Ela ainda não está no rol das vacinas oferecidas pelo Serviço Público, o que não acontece num grande número de países europeus, Austrália, etc. 

As vacinas são encontradas em clínicas de vacinação e grandes laboratórios que tem setores de imunização. 

Algumas experiências isoladas, no entanto, já foram colocadas em prática em algumas cidades brasileiras, com a vacina quadrivalente:

1 - Barretos   -  em 2010/2011 - Vacinação escolar  em 1.377 meninas do 6o. e 7o. anos do ensino fundamental.

2 - Campos de Goytacazes, RJ - em outubro de 2010 - Vacinação escolar e Postos de Saúde - 17.000 meninas (11 a 15 anos nas escolas)  e mulheres jovens (9 a 26 anos  todas HIV +). 

3- Taboão da Serra, SP - em setembro de 2012 Vacinação Escolar - Meninas e meninos entre 9 e 13 anos num total de 1.500 adolescentes.

4 - São Francisco do Conde, BA - em março de 2011 - Vacinação escolar - 1.500 meninas de 10 a 14 anos.

5 - Distrito Ferderal, Brasil -  em abril de 2013 - Vacinação escolar - 65.000 meninas nascidas entre 1o. de janeiro de 2000 até 31 de dezembro de 2002. 

Algumas áreas do Brasil apresentam um alto índice de Câncer de Colo do Útero, a frente do Câncer de Mama, que prevalece no mundo inteiro incluindo o sudeste e sul do Brasil. Pernambuco / Recife apresenta índices alarmantes de prevalência e incidência de infecções pelo HPV e do câncer correlacionado. 

Vacinas são um instrumento fundamental em Saúde Pública, tanto quanto água limpa e saneamento básico, um trio que vale por dezenas e dezenas de hospitais... Isso é sabido no mundo inteiro. Menos na cabeça de alguns dirigentes por esses lados ao sul do Equador.

O que é uma lástima.  Diminui-se o imposto de tudo (carros, equipamentos, computadores, alimentos, luz etc), menos o imposto de remédios, vacinas, livros, etc. Decerto são artigos de luxo para os brasileiros.  


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Diagnóstico no pedido de exame - Decisão da Justiça


Justiça Federal veda a exigência da colocação do diagnóstico (CID*) em pedidos de exame.

Conforme notícia publicada na última edição do Jornal do Conselho Federal de Medicina (acima), o Tribunal Regional Federal da 2a. Região, por decisão da sua 5a. Turma Especializada, reiterou que as operadoras e planos de saúde  não podem exigir o preenchimento do diagnóstico/CID nos pedidos de exame, como condição para a realização de qualquer exame e mesmo para o pagamento/ ressarcimento de honorários médicos. 
Na mesma decisão o TRF também se manifestou contrariamente a uma prática corrente entre alguns planos de saúde segundo a qual somente médicos do convênio podem solicitar exames através dos mesmos. Ou seja, você escolhe e paga um urologista de sua confiança, que não é do seu convênio e depois precisa ir a outro "do plano" para  pedir e  "esmolar" que o mesmo transcreva/refaça os pedidos de exames do médico original. 
Vale a pena ler na íntegra a notícia acima. 
Na especialidade urológica, lidamos com diagnósticos delicados e muito íntimos da pessoa. Geralmente esses "formulários" passam na mão de pessoas de função meramente burocrática que, então, tem acesso a esses diagnósticos delicados. 
Imagine se, sem que você saiba, um vizinho seu seja um desses funcionários do seu plano de saúde...

* Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (antigo Código Internacional de Doenças) - Organização Panamericana de Saúde e Organização Mundial de Saúde - Décima Revisão 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fim das sacolinhas - opinião do cidadão*.


Às vezes eu me pego pensando em quão ardilosa é um parte da sociedade brasileira, uma pequena parte, e quão boba é o resto (enorme) dela.

Festeja-se junto com o aniversário de São Paulo, amanhã, o fim das sacolinhas plásticas dos supermercados.
Ecologia que atende o interesse econômico.

Os varejistas vão agir como os atacadistas que não fornecem embalagens e cobram mais barato, mas vão continuar cobrando o preço cheio do varejo, agregando ainda a venda das coloridas sacolas ecológicas.

Nos Estados Unidos não usam sacolas plásticas (ou usam biodegradáveis), mas se você faz compras em certo volume ainda existem os bons sacos de papel, grandes,  reciclados e recicláveis.  Aqui não.

Consumidor vire-se! Compre as nossas sacolas ecológicas! Numa compra de mês, imagine quantas...

Por que não então não voltarmos ao tempo do óleo em tambor, daquele que a gente levava o litro para encher, o mesmo que fazíamos com o tamborzinho de leite? 

E os pets que atulham os rios? Nesses ninguém vai mexer, porque comprar refrigerante a granel é inaceitável e aqui a ecologia não funciona, ou não interessa, pois quem teria que por a mão no bolso não seria o consumidor!!!

Wake up my fellow citizens!

* Janeiro é més de férias e reflexão. Na proposta desse blog, não só a Medicina e a Urologia estão em pauta, antes de médico, ou qualquer outra profissão, todos somos cidadãos comuns. Compartilharei algumas reflexões como tal com os leitores.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Doenças raras, pesquisa médica e cidadania.

Originalmente postado em 10 de Agosto de 2010

Mahatma Gandhi escreveu que se todos os livros que amparam os fundamentos do Ocidente se perdessem e sobrasse apenas o Sermão da Montanha, um ícone do Cristianismo, ainda assim o Ocidente poderia se recompor. Literalmente não foram essas as suas palavras, mas o sentido sim.

Em tempos de eleição de todos os lados somos bombardeados com algumas noções que orientam o nosso sistema de governo, nosso Estado e a Nação.

Cidadania tem sido um dos valores mais valorizados e utilizados no chamamento das pessoas, para os assuntos que vêm à baila nessas ocasiões, nos últimos anos.

Dentro da cidadania cabe a pressão social por reclamos justos que interessam diretamente o cidadão e a coletividade. É como uma catarse pública das necessidades e anseios de cada um e da coletividade. Justo é reivindicar aquilo de que necessitamos e carecemos.

A identificação dessas necessidades e carências é cristalina a cada povo, cada comunidade e, até mesmo, a cada grupo organizado. O mesmo não pode se dizer quando deitamos o olhar nos interesses dos outros ou naqueles de outras comunidades e grupos.

A beleza em se identificar e pressionar não apenas pelo que precisamos e queremos, mas do que precisam e querem outras pessoas, grupos e comunidades, é inquestionável e se insere perfeitamente no espírito e nos fundamentos do curto texto do Sermão da Montanha, exaltado por Gandhi.

Pena que isso, no conjunto das nações, não seja muitas vezes identificado.

Parte, porque a pressão popular nem sempre exibe maturidade e independência e muitas vezes olha apenas o seu umbigo. No caso da manipulação abundam os exemplos de espertalhões, pessoas e instituições orquestrando a “pressão popular”. Mascaram ou descaradamente envolvem interesses pessoais, escusos ou menos nobres. Interesses de poder e domínio. Esses exemplos, infelizmente, todos nós, com mais de dois neurônios ativos, sabemos nomear, de súbito, meia dúzia de exemplos próximos, no país e no exterior.

Muitos, contudo, são inocentes úteis, massa de manobra moldável por poucos trocados ou fraca filosofia e ideologia de poucos neurônios, engrossando um movimento de milhões de marionetes, ansiosas por satisfazer interesse do dia e do agora.

Outros são tão difusos, que mesmo aqueles por quem se clama, sequer percebem o clamor.
Na Medicina nos últimos anos algo nessa exata medida vem acontecendo.

Refere-se ao clamor da comunidade científica e comunidade comum dos países de primeiro mundo em relação ao baixo volume de recursos, interesse e disposição de se pesquisar as doenças mais raras e/ou tropicais mais incidentes no terceiro mundo. No mundo pobre, digamos com todas as letras, sem subterfúgios semânticos.

É discussão longa levantada em revistas como o New England Journal of Medicine, através de várias dezenas de artigos e cartas, bem como em outras revistas de igual ou menor quilate, ganhando também várias instâncias da sociedade organizada de muitos desses países, incluindo audiências no poder legislativo de vários deles.

É responsabilidade social sendo cobrada de suas empresas, não apenas do que interessa ao quintal da casa de cada um, mas num olhar mas longe.

É prova inequívoca de que existe uma distinção entre sociedade e suas organizações não-econômicas de um lado e as empresas, representando a atividade econômica e o lucro de outro.

Esse é um daqueles fatos que devem ser chamados à atenção para as mentes tupiniquins extremamente limitadas e estreitas em sua visão. Aquelas que julgam todos os que não são brasileiros, ou seus “iguais”, como “capitalistas selvagens”, de alto a baixo.

Para essas mentes deficientes, com certeza, esse fato todo deve ter escapado ao conhecimento, como devem ter escapado vários outros exemplos da mesma natureza.

Para essas mentes, apenas fisicamente no século XXI, resta a limitação de seu mundinho. Restam os conceitos até,
pasmem, da “burguesia”. Embora, com grande probabilidade, noventa e nove vírgula nove por cento dos donos dessas mentes não saiba sequer o que foi um “burgo”…

O fato é que os reclamos pelo descaso científico de institutos governamentais e privados, empresas farmacêuticas e demais entidades envolvidas com pesquisa, começa a frutificar.

Entre outras ações concretas, já existem redes sociais como o Collaborative Drug Discovery em que a filosofia do “código aberto” está lá, disponível para todos os que se dispuserem investigar e pesquisar. Esse compartilhamento de conhecimento evita o “partir do zero” e propicia complementações de valor inestimável no mundo da pesquisa.

Gigantes como a empresa farmacêutica Glaxo-Smith-Kline estão aderindo a esse tipo de código. No caso específico da GSK, disponibilizando todas as fórmulas e informações de nada mais do que 13.500 compostos químicos de uso potencial na inibição do parasita responsável pela malária.

Malária, uma doença que, “por acaso”, temos aos montes aqui no Brasil, na Venezuela, em Cuba e em outros “recantos” envolvidos em “antagonismos ideológicos ressuscitados” por parte de algumas pessoas que parecem não simplesmente não ter um calendário em casa. Livro de História, então, nem pensar!!!

A propósito a citação de Gandhi :
“…se toda a literatura espiritual da Humanidade perecesse, e só se salvasse o Sermão da Montanha, nada estaria perdido”

Violência e juventude

Originalmente postado em 17 de Agosto de 2010

As estatísticas da OMS são gerais e podem estar subestimadas em funçãos de vários conflitos bélicos atívos no mundo nos dias de hoje, o que faz aumentar o potencial letal dessas vítimas.
Em nosso país também devemos considerar o subregistro da violência urbana, sobretudo aquelas que não são fatais e escapam às estatísticas policiais e hospitalares.

Mas mesmo com essas nuances os números não deixam de ser perturbadores: a violência na juventude (ou contra os jovens) é uma das causas principais de morte entre os jovens, particularmente os jovens do sexo masculino. Estima-se que 565 jovens entre os 10 e 29 anos morra a cada dia em função de violência interpessoal . Para cada uma dessas mortes há uma estimativa de que hajam até 40 outros jovens que sofrem violência resultando em situações que necessitam de cuidados hospitalares diariamente.

Quais são os “remédios” e “vacinas profiláticas” para esse problema de saúde pública?
O assunto pode parecer complexo mas não é tanto.

Começa pela necessidade de disposição do poder público em querer atuar nesse sentido.

Passa por leis mais rígidas e efetivamente cumpridas, sobretudo na sua fiscalização, no que tange à restrição do comércio e acesso a armas de fogo, redução do acesso ao álcool e drogas. Passa também pela educação, fortalecimento de instrumentos sociais de convívio como acesso ao esporte, atividades sociais e de socialização, fortalecimento das relações familiares e da própria família.

Nesse particular é preciso mudar a visão tacanha dos governantes a respeito do acesso ao esporte, muitas vezes limitada à construção de campos de futebol ou piscinas desprovidas de educadores físicos e treinadores. Esportes “burgueses”, nessa mesma visão tacanha e deplorável podem e devem muito bem estar a disposição de jovens desprovidos e sem acesso à pluralidade de sonhos e desejos tornados comunitários e banais a todas as “classes” em países que já deixaram os primórdios do século passado e para cujas sociedades alguns conceitos como “burguesia”, “classes sociais” e outras “pérolas” do passado são apenas conhecimentos histórios devidamene socializados. Certamente esportes um pouquinho diferentes do futebol podem envolver e resgatar jovens com incontáveis talentos ocultos e significar a diferença fundamental na vida dessas pessoas em formação. Certamente não falta ao Brasil uma plêiade de professores e técnicos em Educação Física que veriam suas profissões e carreiras merecidamente valorizadas.

No escopo das relações instituicionais e constitucionais falta também, em muitos países, um sistema correcional que desperte um mínimo de respeito e temor das consequências em jovens que já sabem muito bem raciocinar e responder por seus atos. Países com séculos a mais de desenvolvimento e vivência, sobretudo com democracias mais antigas do que muitos desses países, frouxos em seus sistemas de correção e recuperação social, não devem estar errados em seus sistemas correcionais mais rígidos. Colocam em prática sistemas que já despertam um respeito maior pelas suas penas quando a ordem social é quebrada. É um fator de inibição formidável sempre presente.

Pura perda de tempo querer reinventar a roda!

Álcool e Juventude

Originalmente postado em 17 de Agosto de 2010

Na seqüência de nossos artigos, não há como separar o uso abusivo e pesado do álcool pelos jovens e alguns fatos que publicamos no post anterior.

Os dados estatísticos não são uniformes em todas as nações, pela crônica falta de pesquisas padronizadas e homogêneas em todos os países. Mas o que há disponível não deixa muita margem à interpretações diferentes ou a um senso comum no assunto.
Existem muitas variações internacionais e regionais sobre o consumo de álcool entre estudantes e jovens.

Comecemos pelos índices de abstinência da substância entre as pessoas dessa faixa etária. Ela pode ser relativamente variável como 98,6% em Comoros (um arquipélago vulcânico, entre a costa leste da África e o noroeste de Madagascar, com pouco menos de 1 milhão de pessoas, de origem multicultural e grande pobreza) ou extremamente baixa , 6,7%, em Latvia (uma pequena república parlamentarista báltica, espremida entre a Estônia e Lituânia e pela pobreza – 3º. país mais pobre da União Européia).

De outro lado, outro grande contraste: a porcentagem de jovens dados a episódios de grandes bebedeiras (heavy episodic drinkers) é de apenas 0,2% do jovens no Líbano e Malásia e sobe a espantosos 20,1% dos jovens na República Tcheca.

Infelizmente parece que a cultura do beber excessivamente entre os jovens vem se disseminando pelo mundo todo. Recordes lastimáveis são vistos em Israel e nas Filipinas. E, mais preocupante, com a dianteira desse comportamento sendo verificada no sexo feminino, como se tem verificado na Austrália e Lituânia

Nesses lugares esse tipo de comportamento é verificado fortemente em meninas com idades entre 14 e 19 anos na Austrália e na Lituânia em meninas entre os 15 e 16 anos (não, você não leu e nem escrevi errado - entre 15 e 16 anos! Fonte: World Health Organization – WHO global status report on alcohol 2004. Geneve. ).
Quando pareamos os dados de efeitos e causas as coisas também apresentam grande variações, algumas bastante lastimáveis.
Os índices de mortalidade em razão de homicídios entre pessoas na faixa dos 10 aos 29 anos chegam a 84,4 por 100.000 na Colômbia (com uma abissal desproporção de 156,3 por 100.000 no sexo masculino e 11,9 para o feminino) e menos que 1 por 100.000 (igual em ambos os sexos) no Japão e França.

Mundialmente o álcool tem uma estimativa de responsabilidade de 26% dos anos de vida perdidos em função de homicídios. E nesse quesito os países em desenvolvimento apresentam taxas menores (18% no sexo masculino e 12% no sexo feminino) em função de outros fatores dividindo a responsabilidade por essa tragédia silenciosa de suas juventudes. Eles compõem juntos as altas taxas de mortalidade de jovens, incluindo-se outras causas como doenças preveníveis e a fome.

Nos países desenvolvidos, livres dessas outras causas, a combinação álcool x homicídios sobe a 41% nos homens e 32% na mulheres.

Esses dados constituem apenas a ponta mais negra de um grande iceberg social, com uma bomba relógio em seu interior.

Quando consideramos as ocorrências não fatais relacionadas com toda essa situação, as estatísticas ficam mais nebulosas e difíceis em sua disponibilidade. Colecionamos aqui estudos menores, mais não menos significativos:

- Nos Estados Unidos, numa amostra de certa comunidade, envolvendo pessoas entre 18 e 30 anos, encontrou-se 25% de homens e 12% de mulheres que experimentaram algum episódio de violência ou agressão, dentro ou ao redor de bares regulares e legalizados, durante o ano prévio à pesquisa.

- Na Inglaterra e País de Gales, pessoas entre 18 e 24 anos, que referiram ficar pesadamente bêbedos pelo menos uma vez ao mês, tiveram uma chance duas vezes maior de se envolver em brigas de bar. Nas mulheres isso subiu a 4 vezes…

- Na Finlândia, 45% de todos os incidentes violentos envolvendo pessoas entre 12 e 18 anos estão relacionados com a bebida, tanto envolvendo o perpetrador ou a vítima.

As estatísticas se sucedem e não melhoram.

Outro fenômeno negativo e em expansão no mundo todo é a violência de gangs.

Nesses fenômenos sociais envolvendo predominantemente pessoas jovens, o álcool desempenha um papel central, seja para a “iniciação” nesses grupos, seja para aumentar a confiança antes dos seus confrontos entre grupos rivais.

O fenômeno toma proporções preocupantes, tanto em países desenvolvidos, quanto em países em desenvolvimento.

Em Bremen na Alemanha, metade das ocorrências violentas atendidas pela Polícia tem origem em gangs. No Caribe os índices de violência desse tipo e a estreita ligação com o álcool atingem níveis insuportáveis.

Como resolver esse problema:

A receita parece repetitiva mas passa por uma atitude política e social.

Leis que regulem o acesso ao álcool e que sejam fiscalizadas: idade mínima, fiscalização de venda e consumo, fiscalização de álcool X trânsito. Restrições legais aos locais aptos à venda de bebidas (o que já é feito no exterior, e não no Brasil, onde, por exemplo, qualquer lugar pode vender bebidas, sem nenhum controle ou licença especial, etc.).

A sociedade por sua vez deve funcionar como um tecido unido.

Experiências muito simples de envolvimento de vários setores, senão todos, numa ação coordenada mostram resultados surpreendentes (veja o leitor internauta a experiência do programa DEZEPAZ de Cali na Colômbia ou o The Queensland Safety Action Projetcs na Austrália).

Por fim a Educação e a socialização do jovem (esporte, atividades culturais, atividades sociais).

Educação e socialização devem caminhar de mãos dadas. Só a Educação de boa qualidade não adianta, ela “sobra” nos países escandinavos, por exemplo, onde os adolescentes morrem de tédio e solidão, por falta de socialização e famílias mais presentes. Literalmente se entregam a bebida e outras coisas, além de ostentar um cifra impressionante de suicídios.

É de se pensar, sobretudo para aqueles que são pais.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Antibióticos - controle da venda e uso.

Originalmente postado em 26 de Junho de 2009

O Brasil é um país de muitas dualidades. Existe uma massa enorme na população que vive à margem do binômio informação/conhecimento, relacionado ao que acontece no país e ao dia-a-dia. São pessoas que constituem a maioria, com um perfil sócio-econômico baixo, e servem como massa de manobra de uma parte da minoria oposta: governantes e políticos, guardadas as exceções. Essa camada da população; ou não têm acesso à informação crítica; ou, se tem, não lhe dá bola.

Suas perspectivas e objetivos são o hoje e o agora, a subsistência ou viver o seu dia-a-dia. Opinião e mobilização são processos nebulosos na sua materialização e execução.

De outro lado existe uma minoria informada dividida em muitas “tribos” ou subdivisões sociais. Os que de tudo reclamam e criticam, os engajados, os técnicos, os que se locupletam e assim por diante.

Porque um preâmbulo tão chato? Porque algumas medidas que se impõem e/ou são tomadas pela parte técnica do poder público, uma parte que ainda pensa na coletividade e no bem público muitas vezes precisa enfrentar um jogo de manipulações, de pressões dos mais variados tipos, muitas vezes em nome de interesses escusos e mesmo esquemas empresariais, cujo único objetivo é o lucro pelo lucro, sem compromisso social. Compromisso social que, muitas e muitas vezes, é mesmo invocado para confundir e manter um estado de coisas altamente prejudicial à população.

É o que vem ocorrendo com a divulgação de intenção da ANVISA ( Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no sentido de tornar mais rigoroso o controle sobre a venda de antibióticos nas farmácias, a exemplo do que passou a ser feito com os anti-inflamatórios.

Há poucos dias ouvi um Sr. pelo rádio, se posicionando contra a medida, representante que é dos donos de farmácia. Os argumentos eram risíveis e de uma ignorância impar. Alegava que “a pessoa que já tinha tido determinada doença e sabia que era a mesma” ( sic – palavras literais) podia muito bem comprar o mesmo antibiótico, que já funcionou uma vez e tomá-lo novamente sem problema e sem precisar ir ao médico, ou, noutra situação, consultar-se com o seu farmacêutico que “receitaria” o medicamento.

Oras…

Esquece-se o Sr. das Farmácias que essa prática é perniciosa e perigosa. Junto com esse comportamento existe a receitação da vizinha, do tio, do colega de trabalho, etc. Todos por analogia perigosa vão impulsionando as vendas de balcão dos antibióticos.
Ora, vender aspirinas, anti-sépticos bucais e outros medicamentos de uso livre, com baixo potencial de dano à saúde é uma coisa, mas estender isso para antibióticos, anti-inflamatórios é coisa muito distinta.
Esquece-se, decerto, o Sr. das Farmácias que farmacêutico presente na farmácia é comum nas grandes cidades e nas grandes redes. No interior é muito comum o farmacêutico que “assina” a responsabilidade técnica por algumas farmácias, que se caracterizam única e exclusivamente por lojas de remédios. No mais a mais, Farmacêuticos conscientes são profissionais muito responsáveis e cônscios de sua área de atuação, conhecendo todos os meandros das drogas, formulações, manipulação de sais, legislação, cuidados de armazemagem, etc.

Nas “Lojas de Remédios” , um simples ponto comercial , que também existem aos montes nos grandes centros, estão os balconistas que vão assimilando as “receitas de bolo”: para dor de garganta –eritromicina; para inchaço – lasix, para dordolho- colírio de gentamicina, para infecção da bexiga – uropol.
Fica fácil entender que esses balconistas são uma seara fértil à manipulação dos vendedores de remédios das indústrias farmacêuticas de ética no mínimo duvidosa. É a chamada “empurroterapia”. O cidadão chega na loja de remédios e fala “estou com a digestão difícil, empachado” e toma lá um monte de coisa, sobre cuja venda o balconista vai ter um “bonuszinho” para engordar o salário no final do mês.

Triste, mas pura realidade.

Realidade atroz quando consideramos a venda de antibióticos.

As bactérias comunitárias ( e também as hospitalares), face ao uso indiscriminado de antibióticos vêm cada vez mais mostrando-se resistentes a vários medicamentos dos quais se esperava um prazo muito maior para isso acontecer.

São armas importantes que estão sendo “queimadas” porque vão ficando ineficazes em proporções cada vez maiores quando consideramos as infecções urinárias, respiratórias, de pele, intestinais, etc.

Vejamos, por exemplo, a ciprofloxacina nas infecções urinárias. Quando lançado, esse medicamento caro, uma fluorquinolona de terceira geração, era de eficácia próxima dos 100% em praticamente todos os principais germes comunitários e hospitalares. Hoje, poucos anos depois, vemos a sua eficácia cair para algo em torno de 80 a 70%, o que, sem dúvida, é uma tragédia.

Por isso, a medida é bem vinda para o bem da própria população, sem contar com outros efeitos adversos relacionados com o uso dessa classe de medicamentos, que não são inócuos.

É uma medida de saúde pública.

Por outro lado, fique bem claro, não se trata de angariar pacientes para os médicos, mas simplesmente levar a sério uma condição de saúde que precisa do cuidado médico e precisa de uma prescrição conscienciosa, baseada num diagnóstico correto e num acompanhamento da infecção que motiva o seu uso.

No final da mesma entrevista ao jornalista Heródoto Barbero, o “SR das Farmácias “ invocou também o fato da dificuldade da população de baixa renda ir ao médico. Isso não é bem verdade em parte e em parte não justifica a liberalidade irresponsável para sua solução (escondendo interesses puramente comerciais - para os quais a mesma população de baixa renda não tem dinheiro para entrar nesse jogo, diga-se de passagem). É o famoso argumento do “nivelar por baixo” uma prática muito comum no Brasil.

Os programas de saúde comunitária e da família, os postos de atendimento mais simples, estão cada vez mais difundidos em todas as cidades brasileiras: são postos de saúde, pronto-atendimentos, unidades de atendimento ambulatorial, hospitais primários e secundários, etc. , quase todos, inclusive, com dispensação gratuita de medicamentos.

O que não se pode conseguir é mudar do dia para a noite a mania dessa grande massa de brasileiros de procurar sempre o hospital antes dessas unidades básicas de saúde, que o brasileiro vê como um local ineficiente e desprezível, uma visão totalmente distorcida, anacrônica e falsa.

Esse blogueiro trabalha há 22 anos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC). Só muito recentemente uma medida administrativa corajosa e bombardeada no começo, mas mantida, reservou o Pronto-Socorro desse hospital para emergências referenciadas, ou seja, emergências graves, de nível terciário, que já foram vistas por uma unidade básica , hospitais secundários ou mesmo pelos paramédicos do SAMU, Bombeiros, em acidentes nas ruas e avenidas da cidade.

Antes disso, várias vezes o Pronto Socorro do HC quase entrou em colapso por ter que atender politraumatizados gravíssimos e complexos , lado a lado com unhas encravadas há um mês, corrimentos vaginais com uma semana de duração e bebedeiras de desocupados. Isso, sem contar, saberão bem os economistas e administradores que me lêem, a quanto gira o “taxímetro” da conta de uma unha encravada, quando ela passa pela porta de uma estrutura sofisticada e complexa para o porte de atendimento hospitalar do maior hospital público da América Latina . É recurso desperdiçado pelo ralo. O mesmo vale para o atendimento ambulatorial, registrando-se que para a população do entorno o hospital atende todos os diferentes problemas em sua complexidade (primário ao terciário) em bases organizadas e no volume restrito dos bairros vizinhos.

Para as pessoas que entendem de gestão fica claro que o problema de saúde pública no Brasil, pode precisar de muito mais investimentos do que tem, mas precisa de muita gestão também. E essa gestão é complexa porque tem que enfrentar aspectos culturais enraizados na população e nos próprios políticos, que muitas vezes, demagogicamente, as perpetuam. Para exemplo do descompromisso e falta de consistência da ação pública, em muitas cidades pequenas verifica-se que o “sistema de saúde municipal” se resume a uma grande frota de ambulâncias e até ônibus, renovados constantemente, para transportar os pacientes para a capital e cidades maiores, não apenas dos casos graves, que muitas vezes são minoria, mas de casos de diabetes, pressão alta, doenças crônicas, etc.

Isso nos leva à terceira necessidade, que se imbrica com todas as demais e é a mais grave, qual seja a da moralidade da gestão pública, do cuidado com a “res publica” , a coisa pública. Tão escorchada e aviltada nos mais altos postos do Poder (ou pudê = pudê fazer tudo o quiser) com mordomos a R$ 12.000, e todos os mais execráveis expedientes a espoliar a Viúva, com um cinismo a toda prova, totalmente descarado.

Mas, para concluir esse tópico, a hierarquização do sistema de saúde não é uma invenção. Está testada e aprovada como meio de atender bem e poupar recursos da forma mais humana possível - racionalizando o uso dos recursos.
Prova disso é o sistema de saúde britânico, dos mais conceituados e eficientes , que tem na hierarquia dos serviços e referenciamento dos níveis de complexidade o seu grande trunfo econômico e funcional.

Ainda no aspecto da omissão de longo prazo dos nossos políticos, o leitor, quando tiver um tempinho percorra as ruas e avenidas nos arredores do HC, num dia de semana, logo pela manhã e veja a quantidade de ambulâncias, vans, micro-ônibus e ônibus, observando suas placas de origem. Não se assuste se encontrar várias ambulâncias de cidades do sul de Minas e Rio de Janeiro, sem contar os pacientes de outros estados. Mas, o leitor poderá perguntar: Como hospital público, conveniado ao SUS ( e não do SUS), o hospital não é para todos os brasileiros ?

Sim e não. A maior parte dos hospitais públicos no estado de São Paulo, são estaduais e vivem com verbas orçamentárias estaduais, complementadas pelos repasses do SUS. O custo operacional é muitas vezes maior do que os valores repassados (hoje estimados num teto de 10 milhões de reais/ mês), uma fatiazinha do orçamento total do complexo ( que inclui vários institutos: o Central (HC que todo mundo localiza no prédio cinza), Instituto da Criança, Instituto do Coração, Prédio dos Ambulatórios, Instituto de Radiologia, Instituto de Ortopedia, Medicina Tropical, Instituto de Psiquiatria, Hospitais Auxiliares do Cotoxó e Suzano e o próprio ICESP ( Instituto do Câncer - também estadual) entre outros menores.
Assim, o atendimento de casos complexos de qualquer parte do Brasil e até do exterior nos lisonjeia e nos desafia ao melhor da nossa capacidade como corpo clínico, mas por outro lado causa-nos perplexidade o fato de brasileiros de outros estados precisarem se deslocar até aqui para tratar de coisas que poderiam ser tratadas em suas cidades, em suas regiões, houvesse um plano de investimentos na estrutura de saúde, contínuo e maior do que os personalismos a cada 4 anos e não apenas no transporte de doentes. Cidades e regiões onde os melhores médicos são conhecidos como Dr. Anhanguera, Dr. Raposo Tavares, Dr, Castelo Branco, Dr. Fernão Dias, Dr. Dutra e para os mais aquinhoados Dr. Tam , Dr. Gol e Dra. Varig. O que ao mesmo tempo desestimula a fixação e motivação dos médicos fora dos grandes centros, uma necessidade imperiosa para o País.

Aliás isso é sintomático. Nossos governantes dão bem a idéia de como cuidam da saúde em seu país e e em seus estados e cidades. O presidente Figueiredo foi fazer suas pontes de safena em Cleveland; já os presidentes dos Estados Unidos são tratados no Hospital Naval de Maryland. Alguns outros exemplos mais recentes mantém firmemente essa “política de padre” (”faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço” - use os nossos hospitais, que eu uso os particulares de S. Paulo) . Nada contra, mas eticamente, talvez, essa livre escolha devesse ser às expensas próprias e não às do contribuinte !

Nesse contexto complexo, deixo, pois, registrado meu aplauso a medida de controle mais rigoroso para a venda de antibióticos nas Farmácias e “Lojas de Remédios”. Uma medida de algumas pessoas responsáveis, dentro do poder público, que, mesmo que contra muitos e quase todos, está seguindo princípios técnicos e científicos, senão, também a consciência do dever de olhar por todos nós, mesmo que o remédio aparentemente seja amargo!

Viaje o leitor para qualquer país decente, entre em uma farmácia e tente comprar o que aqui compramos como se fossem balas ou chocolate.

Porque será, não?

Associações de Pacientes - um idéia (ainda) em gestação no Brasil

Originalmente postado em 18 de Maio de 2009

No exterior é muito comum a existência de associações não governamentais constituídas por pacientes afetados por alguma doença de grande incidência ou rara. Também é frequente a existência de organizações voltadas para patologias muito comuns e que prestam apoio e informação. Não são concorrentes das tradicionais entidades médicas, mas suas aliadas em prol do combate ao principal problema de todas as doenças, das mais variadas espécies : a desinformação.

No Brasil existem algumas associações exemplares, nesses moldes, mas ainda ficamos muito aquém, quando comparamos o que existe lá fora.

Recentemente conhecemos a
Associação Portuguesa dos Doentes da Próstata, uma entidade com site e até telefone de informações e apoio. Um exemplo que poderia ser muito bem reproduzido no Brasil, sob o apoio da Sociedade Brasileira de Urologia.

Dra. Nadir Oyakawa - uma amiga perdida à violência.

Originalmente postado em 23 de Dezembro de 2008

Nadir Oyakawa era uma das maiores especialistas em LASER e HPV do Brasil.

Foi pioneira do método, ainda na UNICAMP, no início da década de 80, com os primeiros aparelhos utilizados em Medicina, particularmente em Ginecologia.

Foi uma pioneira também do binômio Câncer de Colo do Útero/ HPV.

Foi uma formadora de médicos na sua área dentro e fora do Brasil, à frente da Sociedade Brasileira de Laser em Medicina e Cirurgia e ao Setor de Laser do Hospital Pérola Byington, do qual era fundadora e diretora desde os seus primórdios na década de 90.

Morreu brutalmente assassinada, num assalto em frente a casa de familiares, há quase duas semanas, na zona oeste da cidade de São Paulo.

Mais do que todas as suas qualificações científicas, Nadir era uma amiga dileta nossa. Humilde em todos os ambientes que frequentava e voluntária ao extremo em assistir, ensinar e compartilhar. Entre vários dos seus exemplos de voluntariado estava, inclusive, sua participação como médica, na mesma área de atuação da sua clínica privada, numa das Cadeias da mesma cidade que a engoliu. Montou um consultório ginecológico, equipado as suas custas, para detentas que atendia todas as quartas feiras. Não era o Carandiru, nem nunca escreveu livros ou virou estrela da TV. Era apenas uma médica anônima, até entre os seus amigos, com quem nunca comentou isso, a prestar assistência médica voluntária à mesma violência que a levou.

Guardadas as devidas proporções, o assassinato da Dra. Nadir, próximo ao Natal, lembra uma mesma histórinha, de mais de dois mil anos, de alguém imolado pelas pessoas às quais se dedicava a servir.

Fica nossa homenagem e saudade à amiga de sempre.

Tratamento cirúrgico para o Câncer de Próstata - Posição da Sociedade Brasileira de Urologia

Originalmente postado em 14 de Novembro de 2008

Abaixo nota divulgada pela SBU sobre a cirurgia para o câncer de próstata.
==================================================

TRATAMENTO CIRÚRGICO PARA O CÂNCER DE PRÓSTATA - POSIÇÃO DA SBU

Prezado Associado,

Em função de notícias há muito veiculadas na mídia sobre o melhor tratamento cirúrgico para o câncer de próstata, em geral propalando resultados não endossados pela literatura médica, quer seja pela cirurgia aberta, laparoscopia ou mais recentemente pela cirurgia robótica, registramos:

1- A SBU como instituição maior na defesa dos interesses do urologista a da população em geral, com base na justa informação e ética nos princípios de divulgação médica, não concorda com reportagens na mídia onde de forma velada tenta-se a divulgação de resultados sem o aval científico e sem o respaldo da literatura médica.

2- Que a SBU antevendo uma guerra mercadológica entre simpatizantes de diferentes métodos os quais são defendidos muitas vezes em função de interesses econômicos e de resgatar investimentos gigantescos em tecnologia.

3- Em reportagem recente da revista Veja (reportagem de capa) houve o registro de informação tendenciosa cuja fonte de consulta não tem a força institucional e a isenção jornalística necessária para essa divulgação. A SBU não foi consultada e uma carta minha expondo todos esses pontos como resposta à referida reportagem, não foi publicada.

4- A SBU por meio do seu departamento de URO-ONCOLOGIA fará rapidamente uma diretriz com todas as correntes que militam nesse universo, a saber: Cirurgia aberta, laparoscópica e robótica.

5- Após essa diretriz terá seu posicionamento oficial, inclusive fazendo sua divulgação na mídia em geral.

6- A SBU se reserva o direito de questionar judicialmente ou extra judicialmente o médico associado ou não, que emitir informações descabidas ou inverídicas, infringindo assim o Código de Ética Médica no seu artigo 132.

Atenciosamente,

JOSÉ CARLOS DE ALMEIDA

Presidente da Sociedade Brasileira de Urologia

Gestão 2008/2009

==================================================

Entenda a nota da SBU

Existem muitas pragas na Medicina atualmente. Temo que sejam mais do que 7 pragas, como as do antigo Egito.

Se você pensa que elas dizem respeito apenas aos médicos está redondamente enganado, elas andam atingindo você e toda a população na mesma proporção ( e em alguns casos até mais a população leiga …).

Entre estas pragas, uma delas é aquela relacionada com o marketing médico ou o marketing em saúde.

Marketing, nos dicionários é definido como “comercializar, vender”, “mercadologia” . Segundo o renomado Dicionário Michaelis :

marketing
mar.ke.ting
(márqueting) sm (ingl) Propag 1 Comercialização. 2 Execução de todos os atos de comércio que sirvam para dirigir o escoamento de mercadorias e serviços do produtor ao consumidor. 3 Conjunto de operações que envolvem a vida do produto, desde a planificação de sua produção até o momento em que é adquirido pelo consumidor

Nada contra os respeitáveis profissionais dessa área em geral, mas em saúde o limite entre o marketing ético e o anti-ético é muito tênue.

Não se trata de uma mercadoria qualquer, Saúde e Doença, embora mais e mais, alguns médicos, hospitais e laboratórios insistam que “é um negócio” como qualquer outro e passem a ser assim “administrados”.

Existem mesmo algumas dessas instituições (que por isso mesmo estão deixando de ser instituições para se tornarem apenas “firmas”) que têm em seus mais altos postos marketeiros a lhes comandar e a reproduzir vários e vários “negócios” de saúde. Aliás o marketing esqueceu a doença (palavra proibida) agora só se fala em saúde! Num apelo consumista, esquecendo-se ou querendo fazer esquecer que 90% da atividade médica lida com a doença, lutando sim para restabelecer a saúde, mas ainda é a doença que motiva consultas, que motiva exames laboratoriais, radiografias, exames de imagem, cirurgias, radioterapias, quimioterapias….

Os pacientes, ou os doentes, como o seu velho médico de família carinhosamente se referia aos seus familiares, na nova onda marketeira viraram “clientes”.

A mensagem e a imagem a ser passada é de algo mais “cool” , algo mais “light”, nada de doença. Um lugar famoso em S. Paulo, pródigo em contratar recem formados, obriga seus jovens médicos a atender todos os “clientes” com um sorriso permanente, que faria inveja ao Silvio Santos, não importando o quão ridículo esse sorriso possa ser para alguém com dor, com câncer ou com qualquer outra doença grave…

O ato médico passou a ser secundário nas “ações de saúde, nas ações de marketing”.

Resultados, ebtidas, end point, “valor do ticket” e todas outras expressões idiotas do casamento de marketeiros e administradores deslumbrados têm corroido a profissão médica, a relação médico-paciente.

Aliás, um bom administrador, honesto administrador, veria com facilidade que o ponto nevrálgico do tema Saúde no país todo, em todos os níveis, desde o SUS até os convenios e instituições privadas, está no excesso de intermediários que se colocam, de uma maneira ou de outra, entre o paciente e o médico, tornando o ato médico, que o primeiro precisa e o segundo pode dar, uma coisa mirabolante, estressante, incompleta e insatisfatória.

Algo está errado quando A precisa de B, C intermedia a relação de A com B, com o intuito de “facilitar”, “administrar”, etc. e disso resulta A insatisfeito, B insatisfeito e C cada vez mais rico.

Sempre, resguardando-se as honrosas exceções, vista a carapuça quem tiver a cabeça no tamanho desta !

Nesse ambiente, um dos efeitos negativos que o marketing em saúde pode gerar está esse tipo de situação, como o apontado pela nota da SBU: a divulgação de informações errôneas, tendenciosas, sem respaldo, acenando com “procedimentos maravilhosos”.

Preocupado em aparecer, preocupado em amortizar um investimento tecnológico astronômico as pessoas saem a fazer proselitismo disso e daquilo, literalmente: “forçando a barra”….

O equipamento precisa se pagar, o doutor precisa aparecer, estar em evidência e encher seu consultório, utilizar o aparelho….

Acrescente-se a isso o interesse original dos fabricantes em vender equipamentos e outras parafernálias caras e mesmo miúdas, muitas vezes estabelecendo uma relação promíscua (que é o termo mais adequado) com toda a “cadeia do negócio”, envolvendo, participações e “parcerias” (outra palavra do momento…) e você pode, como leigo, compreender facilmente a praga a que me referi.

Num passado não muito distante, na nossa especialidade, a Urologia, já tivemos alguns “micos”, que foram enfiados goela abaixo de muitos pacientes e médicos incautos, vítimas dessa pressão absurda e subreptícia. Exemplos como os aparelhos de termoterapia prostática, apontados como revolucionários e que o tempo mostrou que, na realidade, eram uma porcaria (alguns hospitais simplesmente jogaram fora seus aparelhos). Mesma coisa com alguns tipos de LASER para próstata. Muitos dos aparelhos iniciais, de um certo tipo de LASER, mostraram-se desastrosos em seus resultados. Todas as demais especialidades têm histórias parecidas.

Mas, como diz a sabedoria, em todo conto do vigário, não existe apenas a má-fe confessa e premeditada de quem o aplica, existe também o interesse inconfesso, o vislumbre da vantagem em quem o recebe.

E assim é, em geral, com a população brasileira, mesmo nas camadas diferenciadas e na nossa mídia, com suas honrosas exceções.

Há um deslumbramento por novas tecnologias, por tratamentos que ainda são experimentais e são sempre apresentados já como definitivos e revolucionários, “must of the must”, já utilizados à larga mano, consagrados. Tudo o mais é considerado como retrógrado e inservível.

Para quem pensa assim: BOM DIA ! Aqui o planeta Terra, São Paulo, Brasil. Preto no branco. Realidade, acorde do sonho. As eleições já foram (outra seara empesteada pelo marketing).
A rosa é bonita, mas é rude e tem espinhos reais !

“… what a grotesque thing a rose is… ”
The Great Gatsby / F. Scott Fitzgerald

O “G8″ da Pesquisa Médica – uma oportunidade já quase conquistada, sem alarde, pelo Brasil.

Originalmente postado em 15 de Novembro de 2008

Enquanto a crise econômica mundial aproxima cada vez mais o G8 (grupo dos países economicamente mais ricos e desenvolvidos) do G-20 (grupo dos paises emergentes e em desenvolvimento) e onde o Brasil esperneia para ver suas teses e decisões acatadas pelos países do primeiro grupo, onde gostaria de estar, na área da Saúde, principalmente da pesquisa, o nosso país pode se dar por satisfeito e tem a comemorar.

Explica-se

Num recente editorial da revista médica Lancet, do dia 1 de novembro de 2008, discorrendo sobre o estado da pesquisa em saúde pelo mundo todo, o Brasil faz parte da sugestão de um similar ao G8, o R8 ( de Reseach – pesquisa em inglês) ao lado dos Estados Unidos com o seu
NIH (National Institutes of Health – Institutos Nacionais de Saúde), o Reino Unido com Wellcome Trust, um fundo não governamental estabelecido por Henry Wellcome em 1936 com um volume de 15 bilhões de libras esterlinas, a França com o CNRS/INSERM (Centre National de la Recherche Scientifique/ Institut National de la Santè et de la Recherche Médicale), instituições públicas, só o CNRS com um budget de 3,7 milhões de Euros; a Índia com o Indian Council of Medical Research, a China com a Chinese Academy of Sciences, o Brazil através da FIOCRUZ (Fundação Instituto Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro); a África do Sul com a sua unidade do MRC (Medical Research Center) e um virtual “instituto comparável” do Oriente Médio (o que agora, provavelmente, já deve estar nas pranchetas de técnicos pagos pelos magnatas dos Emirados Árabes, Arábia Saudita, etc, e/ou por Israel (numa joint-venture do Middle East, numa visão idílica e sonhadora de um mundo perfeito).

Bem representado pela FIOCRUZ, o Brasil ainda tem no mesmo quilate entidades como o Butantã, a FAPESP, USP, UNICAMP entre outros.

Fato concreto

O editorial do The Lancet noticia que entre 16-19 de novembro desse ano, em Mali, países do mundo inteiro estarão reunidos no Global Ministerial Forum on Research for Health na cidade de Bamako.

Pauta : pesquisa para saúde, desenvolvimento e equidade/igualdade.

Os antecedentes mais recentes dessa reunião repousam na reunião dos ministros de saúde de 58 países, num encontro realizado no México em 2004, quando se estabeleceu como landmark o conceito de que a pesquisa de alta qualidade pode melhorar o status de saúde das populações de forma eqüitativa. Nessa mesma conferência reconheceu-se formalmente a necessidade de fortalecer os sistemas nacionais de pesquisa em saúde; estabelecer e implementar políticas nacionais de pesquisa na área e dar suporte à implantação de políticas de saúde pública e sistemas de saúde (inclusive privados) baseados em evidências. Para isso ficou formalmente recomendado e compromissado pelos signatários o aumento dos fundos de pesquisa, a capacitação das instituições voltadas ao assunto e o desenvolvimento de conhecimento.

Por outro lado o editorial aponta alguns gaps que atravancam essa ordem natural de desenvolvimento, qual seja a responsabilidade das Instituições de pesquisa e os programas públicos de demonstrar, claramente, que a alocação de recursos para as pesquisas que elas patrocinam realmente beneficiam as suas comunidades. Recursos esses recebidos muitas vezes aos montes de organismos mundiais, aos bilhões de dólares como os oriundos do Fundo Global contra a AIDS, Tuberculose e Malária.

Aqui temos um lado perverso das Instituições de Pesquisa X Agências de Fomento X Poder Político X Instituições / investigadores privados.

A pesquisa em saúde envolve o longo prazo, demanda investigadores seniores e muitas vezes não atende à necessidade dos políticos de resultados imediatos e visíveis. No aspecto inter-institucional as mazelas podem ser ainda piores, pois valendo-se de influências e amizades, os critérios de contemplação de pesquisas inscritas nos órgãos de fomento nem sempre têm uma seleção clara e isenta. Até mesmo instituições imaculadas não estão a salvo de investidas de disfarçada má-fé, para propósitos de marketing, favorecimento pessoal e privado, leia-se aqui algumas ONG’s e mesmo outras “Entidades” e “Institutos” , disfarçados braços de puro interesse econômico e pessoal, travestidos como “Virgens de Vestal”, procurando a todo custo transferir eventual excelência em outras áreas de atuação, mormente na área privada e assim procurando legitimar-se de carona nos recursos públicos, sem nenhuma contrapartida social sem fins lucrativos.

Para quem quiser saber mais:
http://www.bamako2008.org

http://who.int/rpc/summit/agenda/en/mexico_statement_on_health_research.pdf

Trapalhadas com o Câncer de Próstata

Originalmente postado em 24 de Novembro de 2008

Recentemente o Instituto Nacional do Câncer, um órgão federal do Ministério da Saúde divulgou uma notícia colocando em dúvida a eficâcia do rastreamento do câncer de próstata.

Vários equívocos divulgados.

Em primeiro lugar quando se fala em saúde pública os dados demandam estudos de longo prazo em populações grandes, observando o efeito de uma intervenção realizada na rede pública de saúde.

Exemplo bem elementar: todas as mulheres jovens com a faixa de idade X a Y, devem fazer o exame de papanicolaou anualmente para rastrear o câncer de colo numa fase inicial em que seja curável.

Ação - montar um esquema de atendimento à população alvo que possibilite o acesso a esse recurso, desde a coleta, realização do exame, fornecimento do resultado, atendimento dos casos positivos desde os mais simples até os mais complicados e mesmo os casos de câncer avançado.

Durante anos isso deve ser feito com regularidade e com aferição de quanta gente está sendo atendida, quanto isso representa da população real ( cobertura do programa).

Depois de muitos e muitos anos , 5 -10 anos comparam-se as estatísticas de quanto se diagnosticou, em que estágio, quanto se tratou, quanto se conseguiu diminuir de mortalidade, quanto se conseguiu tratar quando o problema era fácil e inicial e, portanto, se limitou a morbidade ( as outras doenças, ou a extensão da doença) . Só então se podem lançar conclusões.

Para que se tenha uma idéia, depois de décadas de cobertura com papanicolaou, agora começa a se esboçar com base em dados de décadas e em vários países, oportunidades de se reduzir o rigor com que se aplica essa rotina. Mulheres mais idosas que se encaixem num perfil muito bem definido, depois de tantos exames negativos consecutivos podem “espichar” o prazo para 3 anos…

Isso com todas as ressalvas geográficas e culturais. Dados do lugar X que podem com segurança serem aplicados no lugar X. Nem sempre podem ser “transplantados” para o lugar Z.

Quando isso acontece normalmente é porque no lugar Z não existe tanta organização assim, que possibilite a obtenção de dados confiáveis nesse nível ( imagine o leitor quais são esses lugares …)

Muito bem, na notícia do INCA foram citados alguns trabalhos antigos relacionados com o rastreamento na população masculina toda, notadamente em pessoas com mais de 75 anos, com apenas um exame, o toque ou o PSA, etc. Ou seja há um viés de interpretação com uma série de fatores que ainda estão sob estudo.

Os fatos

O câncer de próstata, indepedente de ser mais diagnosticado, está ocorrendo mais.

Um em cada 6 homens apresentará o câncer de próstata.

O PSA, apesar da sua faixa de 15% de alguns tumores em que não se eleva, continua sendo útil nos outros 85%. Não apenas uma dosagem mais seu comportamento evolutivo durante os anos de controle.

O toque retal ajuda muito na avaliação da próstata alterada : nódulos, endurações, áreas assimétricas.

O ultra-som é um ótimo meio de avaliar o resíduo pós miccional (avaliando o esvaziamento completo da bexiga), além de determinar o tamanho da próstata com precisão, ano após ano. Isso tudo porque na próstata não existe apenas o câncer mas também a hiperplasia benigna que, apesar de benigna, pode comprometer o fluxo urinário, diminuindo-o e fazendo a bexiga cada vez mais fazer força (contrair-se) para esvaziar a urina. Durante um tempo o músculo vesical se hipertrofia, mas depois começa a perder eficiência e chega a ficar flácido, situação em que não adianta mais operar o canal, reabrindo-o ao fluxo livre de urina.

Fica fácil entender, do ponto de vista pessoal, aquilo que não se aplica numa generalização populacional lastimável, principalmente de um órgão respeitável, que deveria, mas não têm dados tão abrangentes ( e portanto respaldo científico e epidemiológico) para fazer tais afirmações.

Onde estão os estudo populacionais brasileiros de que o rastreamento desse ou daquele câncer é benéfico ou não, deva ou não ser feito na saúde pública ?

Não perca tempo procurando. Eles não existem. Falta de tudo para termos esse tipo de controle sanitário.

Socorremo-nos sempre nos de fora. As poucas iniciativas para mudar esse panorama não ocorrerão partindo de órgãos isolados, da Sociedade Brasileira de Urologia e mesmo de todas as Universidades, sem que haja dinheiro e organização para isso e uma dose cavalar de cultura e cooperação da população.

Os estudos em curso no exterior devem ser publicados em 2012 - 2015.

Até lá você vai se arriscar e abandonar seus exames regulares ?????

Em tempo, o Instituto Nacional do Câncer voltou atrás e reconheceu o seu erro.