Mostrando postagens com marcador Testículo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Testículo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Os riscos do uso de anabolizantes


O abuso de andrógenos anabolizantes (mais conhecidos como “bombas”) por parte de atletas com a finalidade de aumento de massa muscular tem sido motivo de grandes preocupações de médicos e dos usuários desses medicamentos, quando se veem vítimas dos efeitos colaterais indesejáveis que eles podem ocasionar.

O conhecimento leigo e mesmo da “experiência” de alguns treinadores, instrutores e “usuários experientes” às vezes é superestimado, quando na realidade, é coisa bastante limitada à apenas alguns dos aspectos desses efeitos colaterais. Muitas vezes eles se limitam à ginecomastia (desenvolvimento da glândula mamária masculina) que pode ser ocasionada pelo uso dos andrógenos.

Alguns efeitos indesejáveis, contudo, estão fora do alcance desses “gurus”.

Os andrógenos (hormônios da linhagem masculina, naturalmente produzidos nos testículos, adrenais e também tecido adiposo periférico) na realidade fazem parte de uma grande “cascata” de substâncias químicas relacionadas às várias classes de hormônios e seus precursores em ambos os sexos.

Consequência prática disso? 
Muito simples. Um pode se converter em outro ou num segundo ou terceiro.
Ainda há a possibilidade de o hormônio inibir a sua produção natural ou até estimular um antagonista (um hormônio com atividade oposta).

A bioquímica de cada uma dessas substâncias (e há muitas!) pode ser bastante complicada e não segue um modelo matemático previsível ou aplicável a todas as pessoas igualmente.

O exemplo mais simples é  a própria ginecomastia. Um fato aparentemente paradoxal. Como um hormônio sabidamente masculino pode estimular a mama masculina a assumir contornos femininos?

A dinâmica a que fizemos menção explica isso. O excesso de andrógeno, que não segue uma regra na dose utilizada, mas sim uma resposta individual, pode ser convertido em hormônios que terão esse efeito oposto, até feminilizante.

A inibição dos hormônios naturais e dos seus controladores poderá colocar o testículo em repouso (inibição da glândula hipófise). Muitas vezes pode ser um “repouso” definitivo e irreversível. Há uma para na produção da testosterona natural e mesmo dos espermatozóides que garantem a fertilidade, a capacidade de reprodução da pessoa!

O uso continuado dos esteróides leva à atrofia dos testículos. Na falência do testículo, sem produção da testosterona, cria-se uma dependência total da fonte externa desses hormônios. A reposição hormonal contínua, contudo, pode contornar a parte endócrina, mas não adianta nada para o aspecto reprodutivo. A infertilidade geralmente é irreversível para esses pacientes.

O fígado também sofre em várias de suas funções com a elevação de vários dos marcadores laboratoriais que utilizamos para monitorar a atividade hepática. Hepatites por reações de hipersensibilidade, icterícia e adenomas hepáticos podem ocorrer com o uso prolongado desses agentes.

Na pele, a ocorrência de acne é muito frequente. Geralmente é do tipo mais agressivo (“acne fulminans” e “acne coglobata” – formas extensas em que as erupções costumam se confluir pela vizinhança e profundidade do processo inflamatório da pele). Geralmente são quadros prolongados que costumam deixar cicatrizes ou mesmo assumir um aspecto crônico.

Se o músculo se beneficia do efeito de crescimento fácil (hipertrofia), aumentando a massa muscular, o mesmo não se pode dizer dos tendões e ligamentos. Os anabolizantes esteróides tem um efeito paradoxal nessas estruturas, que ficam mais frágeis e com possibilidade de freqüentes rompimentos.

Por fim, dois sistemas muito importantes em que os efeitos colaterais dos anabolizantes não são muito conhecidos entre os usuários são o sistema nervoso e o sistema cardiovascular.

No primeiro, são claros os efeitos aumentando os distúrbios psiquiátricos que incluem: agressividade, distimia (flutuações importantes do humor), psicose, comportamento criminal, comportamento maníaco, quadros delirantes (de grandeza, euforia, estados confusionais e delírio associado a comportamento criminal). Várias dessas constatações foram feitas com bases em estudos controlados, isto é, estudos em que um grupo de homens recebia doses crescentes de anabolizantes e no outro eles recebiam apenas placebo, sem conhecimento de quem estava recebendo o quê, inclusive os pesquisadores durante o mesmo estudo (o que se chama em pesquisa clínica, estudo duplo-cego).

Várias pesquisas na mesma linha apontam que o uso desses anabolizantes se associa, em proporções enormes, com a dependência mista; tanto do próprio anabolizante; quanto de outras substâncias passíveis de adição (álcool, opióides e outras substâncias) chegando a até 70% usuários.

Já no sistema cardiovascular os efeitos são divididos em duas partes: naqueles diretamente ligados ao coração e vasos e os indiretos,  que vão alterar o colesterol e lípides do organismo. Casos de morte súbita, por infarto agudo do miocárdio, estão relatados em todos os lugares. Geralmente em atletas novos, sem antecedentes de doença cardíaca, totalmente saudáveis, e com uso de altas doses de anabolizantes.

Na autópsia desses pacientes as células do músculo cardíaco estão contraídas e com ruptura das microfibrilas. Também se encontram efeitos do excesso da resposta do sistema comandado pela adrenalina e derivados, bem como aumento do sistema de catecolaminas que afetam a pressão arterial.

Diminuição do colesterol de alta densidade “o que desentope as artérias” é uma constante, aumento do colesterol ruim, aumento dos fatores de coagulação (que facilitam as tromboses e acidentes vasculares cerebrais), aumento excessivo dos glóbulos vermelhos, levando à chamada policitemia (que termina por “engrossar” o sangue) são algumas das consequências do uso indiscriminado de anabolizantes.

O resultado final é que a chance maior de morte prematura por acidentes cardiovasculares nos usuários de anabolizantes é uma constatação em vários e vários estudos pelo mundo todo.

Em resumo, o que a atividade física pode trazer de vida saudável e mesmo prolongá-la é encurtado pelo uso dos anabolizantes.

 
Mais “bonito” e morrendo mais cedo!


Fonte:

Androgen Abuse in Athletes: Detection and Consequences.  Bazaria, S., Boston University School of Medicine, Ma. U.S.A. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. Vol 95, pgs 1533-1543, ano 2010.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Vasectomia e potência

Originalmente postado em 22 de Junho de 2010

Um leitor enviou uma dúvida sobre a influência da vasectomia sobre a potência masculina.

Rapidamente: a vasectomia é um processo de esterilização cirúrgica do homem. Não deve ser confundida com castração (procedimento relativamente raro, utilizado no tratamento do câncer de próstata avançado).

A vasectomia interrompe dois canais que ligam os testículos (um a cada lado) às vesículas seminais.
Esses canais, chamados dutos deferentes, transportam exclusivamente os espermatozóides num meio líquido fluído e translúcido, em pequena quantidade, continuamente, para armazenamento na vesícula seminal que fica atrás da bexiga e acima da próstata.

Eles não têm nenhuma relação com os hormônios que o testículo também produz (testosterona é o principal) que são disponibilizados para o organismo através do sangue.

Na vasectomia os vasos sanguíneos são totalmente separados, aliás, com muita facilidade, do cordão deferente de cada lado. Por isso, o mecanismo hormonal não sofre nenhuma alteração e a potência não se altera.

O nível de testosterona mantém-se igual não influenciando o nível de libido (desejo sexual) ou mesmo a ereção e ejaculação. O volume que um homem vasectomizado ejacula permanece igual porque a grande quantidade (mais de 90%) do esperma, com todas as suas características de cheiro, consistência, aspecto e cor, é produzida na vesícula seminal e próstata. Só não teremos os espermatozóides se fizermos uma análise microscópica do esperma.

Em muitos casais, após a realização da vasectomia, o desempenho sexual da mulher e do homem pode inclusive melhorar, uma vez que muitas vezes a preocupação com uma gravidez indesejada, não programada, deixa de ser um problema nas relações do casal.

Criptorquidia - cinco minutos com o especialista

Originalmente postado em 7 de Abril de 2010

Criptorquidia é uma situação em que o testículo da criança não desce até o escroto (a bolsa que contém os testículos).

Porque o testículo “desce”?
Desce porque na nossa formação, como embriões, nossos testículos são formados ao lado dos nossos rins e o embrião é como uma concha que vai se abrindo. Nessa “abertura” o testículo de cada lado vai migrando, por dentro da nossa cavidade abdominal até a região inguinal (a virilha) e desce até a bolsa, conhecida como escroto (o famoso “saco”, também chamado, com redundância, como “bolsa escrotal” ou “saco escrotal”).

Para que o testículo desce?
Na raça humana e também em alguns animais o funcionamento do testículo deve ser, idealmente, num ambiente de temperatura entre 2 e 3 graus centígrados abaixo da temperatura corporal. Se isso não ocorre existe prejuízo na formação dos nossos espermatozóides, que ficam lerdos, de morfologia alterada e, com o passar do tempo, o tecido que os forma sofre de tal maneira que a sua produção cai e a pessoa caminha para uma infertilidade.

Quais são as funções do testículo?
O testículo produz os hormônios sexuais masculinos (o principal é a testosterona) e também tem a função reprodutora que é a produção de milhares de espermatozóides, as células reprodutivas masculinas com 23 cromossomos que se juntam com o seu equivalente feminino, o óvulo que tem os outros 23 cromossomos da mãe. Uma pessoa adulta normal tem então 46 cromossomos e os sexuais: XX na mulher e XY no homem.

Quando o testículo desce?
Os testículos vão para a bolsa entre a 27ª e 34ª semana de gestação (nessa semana 80% deles já desceram para a sua posição normal). A criptorquidia é a anomalia congênita mais comum nos bebes do sexo masculino. Aparece em 3% deles todos. Após o nascimento o testículo ausente pode estar dentro do abdômen, no canal inguinal (geralmente palpável) ou, mais raramente em locais fora do trajeto habitual (ectópicos). Geralmente 80% dos testículos que não estão na bolsa são palpáveis no exame físico o restante, 20% são não palpáveis podendo estar no abdômen , como já dito, estar atrófico ou já ter desaparecido. Dos testículos fora da bolsa 70 a 77% descem até os 3 meses de vida do bebe. Após um ano de idade a criptorquidia tem uma incidência de 1% que é igual também na vida adulta (entre os homens adultos a condição existe em 1 para cada 100 homens).

Existem pessoas mais propensas a apresentar o problema?
Bebês de baixo peso e prematuros têm mais chance de apresentar o problema. O consumo de cola (vício de cheirar cola) também está comprovado como fator causal, aumentando a chance da criptorquidia. O antecedente de casos na família também aumenta a chance de um bebê apresentar o problema nas seguintes proporções: 3,6 vezes mais se existe um membro qualquer na família que teve o problema; 7 vezes mais a chance normal se for um irmão que apresentou o problema; 4,6% mais se o pai da criança teve criptorquidia. Nos Estados Unidos também se verifica uma incidência maior desse problema entre os hispânicos e afro-descendentes.

Quando uma criança nasce sem o testículo na bolsa o que pode haver?
Em primeiro lugar o testículo que não está na bolsa será identificado clinicamente (palpável) em 80% dos casos; nos restantes 20% ele não será identificado como já foi dito. O testículo pode existir no canal inguinal, acima da virilha, local mais comum (“no caminho natural dele”) ou estar dentro do abdômen (necessidade de exames e até laparoscopia para localizá-lo). Pode também estar ausente (vai se atrofiando ainda na fase de embrião (no inglês “vanishing testis”) ou se apresentar atrófico, já alterado gravemente no nascimento.
Outro fato que pode acontecer com esses pacientes é o aparecimento de algumas condições associadas à criptorquidia: Hérnia inguinal do mesmo lado é a mais comum (em 90% dos casos) e mais raramente: a torção do testículo e outras anomalias congênitas mais raras, como a epispádia e hipospádia (abertura anômala do canal do xixi, fora da ponta do pênis, no trajeto do canal (uretra), na região dorsal do pênis e na parte de baixo (ventral), respectivamente.

O testículo criptorquídico também tem uma chance grande de alterar a fertilidade da pessoa quando adulta. A temperatura maior de 2 a 3 graus Celsius pode interferir nas células germinativas que existem nos testículos. As alterações vão desde a diminuição do seu número até alterações na linhagem das células tronco fetais que vão se convertendo em células tronco adultas e em espermatócitos. Essas alterações ocorrem muito precocemente nos primeiros anos de vida da criança, já marcadamente entre o primeiro e segundo ano, daí a recomendação em se fixar esse testículo ainda no primeiro ano de vida da criança, na tentativa de reverter esses efeitos deletérios sobre o funcionamento do testículo. Essa fixação é um procedimento cirúrgico. Em menor escala se utilizam hormônios para tentativa de uma descida espontânea, com o auxílio de medicamentos.

O testículo fixado está isento de problemas na vida adulta?
Não. Ele deve ser periodicamente examinado. A chance de desenvolvimento de um tumor de testículo é bastante aumentada nesses testículos quando comparados com a chance do mesmo problema em testículos normais. Um em cada dez tumores de testículo ocorre em testículos criptorquídicos. A probabilidade de aparecimento de um tumor num testículo normal é estimada em 1 para 100.000 pessoas. Quando existe a criptorquidia essa chance é de 1 para 2.550 ! Isso representa, praticamente, uma chance 40 vezes maior.
O controle deve ser anual pelo urologista, com palpação e ultrassonografia, além de alguns marcadores dosados no sangue, diante de qualquer suspeita.

O tumor de testículo detectado precocemente (pequenos tumores) são potencialmente curáveis, completamente na grande maioria das vezes e sem interferir na expectativa de vida do homem assim tratado. A doença não vai roubar anos de vida do paciente por ela própria.

O que é testículo retrátil?
É uma situação que simula a criptorquidia. Nela o testículo sobe por reflexo (reflexo cremastérico). Esse reflexo existe normalmente (por exemplo quando pulamos em uma piscina gelada, nas relações sexuais, muitas vezes, etc.). Em alguns rapazes e adultos ele pode ser mais exacerbado. O urologista pode diferenciar uma condição da outra com facilidade.

Dor no testículo

Originalmente postado em 6 de Janeiro de 2010

Uma queixa muito frequente que motiva procurar o urologista é a dor em um dos testículos e mais raramente nos dois.
Dores muito agudas e fortes devem ser imediatamente verificadas. O pior quadro que pode ocorrer nesses casos é a torção do cordão que liga e suspende o testículo dentro da bolsa escrotal. Nesse cordão existem vários elementos como artéria, veias e o conduto deferente por onde passam os espermatozóides. A torção desse conjunto de tubos faz com que o suprimento de sangue arterial, que chega ao testículo, diminua muito ou mesmo cesse. A falta de irrigação de um órgão leva à morte daquela área sem sangue. Isso é genericamente denominado de infarto. O termo infarto, portanto, não é uma coisa exclusiva do coração. No caso da torção de testículo temos como conseqüência um infarto testicular. Como o tecido é muito nobre a falta de oxigênio leva à necrose dos tecidos. Isso evolui com o comprometimento do tecido responsável pela produção dos espermatozóides e depois das células que produzem o hormônio masculino, a testosterona. A maior parte dos pacientes que têm a infelicidade de sofrer uma torção testicular é constituída de crianças, adolescentes e adultos jovens, quando a função reprodutiva ainda precisa ser protegida e é muito importante na vida desses indivíduos. Geralmente existe um fator predisponente do ponto de vista anatômico.


Em linhas gerais esse defeito relaciona-se com a conexão do cordão ao testículo e epidídimo. Numa pessoa normal essa inserção é em toda a porção póstero lateral do testículo em seu maior eixo (imagine uma azeitona preta grande, como se estivesse em pé e com esse cordão ligado de cima abaixo na sua face posterior. As chances de esse cordão rodar e torcer são mínimas. Já nas pessoas predispostas a inserção desse cordão é feita no topo do testículo, como imagem clássica de um badalo de sino. Nessa situação o movimento circular é fácil e pode torcer o cordão. O atendimento dentro das primeiras 6 ou 8 horas garante a recuperação praticamente total desse testículo, sem morte de tecidos. Atendimentos fora desse prazo são acompanhados de comprometimento do órgão. O tratamento da torção é cirúrgico. Rarissimamente se consegue desfazer manualmente a torção. Geralmente o edema local e a dor inviabilizam essa manobra.

Mas, felizmente, a grande maioria das dores testiculares não são tão graves assim.
A dor testicular pode ser sinal de inflamação/infecção no testículo (orquite), no epidídimo (epididimite) ou nos dois (orquiepididimite). Pode ainda refletir um problema da parede abdominal (hérnia inguinal ou inguino-escrotal) e até como dor reflexa de cálculos renais.
Raramente existe a possibilidade de ser uma dor de origem músculo-esquelética, geralmente envolvendo os adutores da coxa e ligamento da região perineal. Esse tipo de diagnóstico é o que chamamos em Medicina como “diagnóstico de exclusão”. Há a necessidade de eliminar todas as demais possibilidades antes de se firmar esse tipo de diagnóstico. O tratamento das condições inflamatórias é clínico e tem vários detalhes caso a caso.
Para os mais hipocondríacos que podem logo pensar em câncer de testículo fica um alívio na informação de que na grande maioria das vezes ele não se acompanha de dor. O sinal principal é a presença de um nódulo (um caroço) indolor, endurecido, de fácil palpação durante o banho e no exame físico do testículo. A dor, quando presente no tumor pode aparecer na evolução de tumores de crescimento mais rápido em que podem ocorrer pequenos infartos no tecido tumoral (dentro do próprio nódulo canceroso). O tratamento dos tumores de testículo atualmente é um dos mais promissores em que podemos falar de cura total. A retirada do testículo contendo o nódulo canceroso é o pilar do tratamento. A quimioterapia complementar é muito eficaz.

A perda de um testículo não representa uma ameaça à função sexual e reprodutiva. O testículo remanescente, desde que normal anteriormente, mantém as duas funções, inclusive com um aumento de seu tamanho (o que em Medicina é chamado de vicariância do órgão – ocorre também em rins que se tornam únicos, por exemplo). No entanto, uma atenção especial deve ser dada à preservação da função reprodutiva quando houver indicação de quimioterapia. Hoje em dia antes de sua realização pode-se lançar mão da coleta de amostras para congelação em banco de sêmen, antes do tratamento. Algumas vezes, meses após o término da quimioterapia pode haver o restabelecimento da função reprodutiva do testículo que restou. O contrário também pode acontecer. Daí a importância do banco de sêmen nesses casos.
Outra situação que deve ser conhecida é o efeito contralateral de situações infecciosas e mesmo a atrofia de um dos testículos. Trocando em miúdo podemos ter um quadro inflamatório/infeccioso de um lado, com o testículo evoluindo para uma atrofia e, nessa situação, influenciar negativamente a função do outro testículo que não apresentava nada no início.

A atrofia do testículo manifesta-se pela diminuição do seu volume. Em condições normais pode existir uma pequena diferença volumétrica entre um testículo e outro no mesmo indivíduo. Isso em geral não ultrapassa uma porcentagem de 15 a 20%. Discrepâncias maiores devem ser investigadas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Anticoncepção masculina - pílula masculina.

Originalmente postado em 6 de Maio de 2009

As tentativas de se atingir um estado de infertilidade passageira, com nivel de falha baixo de métodos anticoncepcionais não-definitivos e segurança, relativamente aos efeitos colaterais, tiveram grande sucesso nas mulheres, que hoje dispõem de uma infinidade de métodos temporários para esse fim.

Eles vão desde pílulas ajustadas para meninas bem jovens, até dispositivos intra-uterinos medicamentosos, de longa duração, utilizados até para abolir as menstruações, passando por uma infinidade de pílulas anticoncepcionais, implantes, injeções, etc. com um variação imensa de doses e combinações hormonais.

Desde o seu lançamento, considerado um marco na sexualidade na década de 60, a “pílula” ou Anticoncepcionais Hormonais Orais (AHO) sofreram constante modificações, objeto de uma pesquisa frenética, para um mercado bilionário privado e público.

Hoje, além da infertilidade passageira, os AHO têm aplicação terapêutica em um sem número de condições ginecológicas, seja como tratamento principal ou mesmo adjuvante (endometriose, menopausa, distúrbios menstruais, ovários policísticos, alguns tipos iniciais de osteoporose, etc.). Alguns de nossos colegas ginecologistas, com os quais convivemos diariamente no Hospital das Clínicas, notabilizam-se pelo vasto conhecimento dos mínimos detalhes e “n” formulações desses medicamentos. Um deles, particularmente amigo, que nos espanta pelo conhecimento vasto e na ponta da língua é o Prof. Nilson de Melo, uma de nossas maiores autoridades nessa área da Contracepção.

Mas como urologistas ficamos com uma verdadeira inveja, no bom sentido, sobre as mesmas técnicas em relação aos homens.
Infertilidade passageira, controlada, reversível e segura é ainda um sonho para os homens.

Muitas são as tentativas para a criação da ‘pílula’ do homem.
Um brasileiro, Dr. Elsimar Coutinho, dedicou grande parte de sua vida científica a isso. Infelizmente com resultados muito modestos.

Notícia recente dá conta que alguns pesquisadores chineses testaram com certo sucesso o uso de undecanoato de testosterona em doses menores do que as encontradas no mercado brasileiro dessa droga, na forma injetável, já utilizada para o tratamento da andropausa, ou mais corretamente, Sindrome da Deprivação Androgênica do Homem, em confortáveis aplicações trimestrais.

O experimento foi conduzido com homens jovens, férteis, com filhos e se extendeu por um período considerável. Segundo o relato chinês todos voltaram a sua condição fértil com a suspensão do medicamento.

É uma esperança, mas que ainda necessita de observação e repetição, com maior tempo de observação, para verificar se junto com os efeitos desejáveis não se observem efeitos colaterais, indesejáveis, em relação à ação do medicamento em outros órgãos e funções.

Explica-se: undecanoato de testoterona é um tipo de testosterona que é metabolizado sem ficar agredindo tanto o fígado, uma grande vantagem sobre a maioria das outras formulações de testosterona, notadamente por via oral, mas que pode, como todas, interferir negativamente no organismo, levando a alterações de comportamento como alterações de humor/euforia, libido exagerada, atrofia do testículo imprevisível, estimulação da próstata (crescimento benigno - câncer (assunto controverso)), além de alterações cardiovasculares, incluindo-se alterações nos lípides (colesterol, triglicérides e frações), com maior chance de AVC (acidente vascular cerebral) e problemas isquêmicos coronários (infarto do miocárdio). Somam-se ainda aumento de pelos corporais, sudorese irregular e alopécia (a carequinha androgênica) e hipertensão arterial. Efeitos verificados em muito menor escala quando fazemos a reposição em pacientes comprovadamente com déficit do hormônio.

Na realidade a história se repete. As primeiras pílulas também tinham efeitos colaterais semelhantes, trocando-se alguns sintomas masculinos por equivalentes femininos, como alterações menstruais, crescimento de pelos, tumores de mama, etc. Muita pesquisa foi necessária para se isolar frações e moléculas com ações cada vez mais específicas dentro do que se desejava, inclusive com doses irrisórias perto da doses “cavalares” dos primeiros AHO.

No homem estamos engatinhando em relação a isso.

A grosso modo, quando ingerimos testosterona exógena existe imediata resposta do organismo no sentido de parar ou diminuir drasticamente a produção da testosterona própria, liberada pelo testículo e de nossos espermatozóides. Quem controla esses níveis e esse funcionamento, o “gerente da fábrica”, localizada no testículo, figurativamente, é a hipófise um pequeno órgão no meio do cérebro que produz dois hormônios comuns ao homem e à mulher (”ordens da gerência para o setor da produção”) chamados FSH e LH - siglas respectivas para Hormônio Folículo Estimulante e Hormônio Luteinizante). O FSH está relacionado diretamente com a produção dos espermatozóides, pela linhagem de células germinativas dos testículos. O LH, por sua vez, está relacionado com a linhagem que lida com a produção hormonal.
Quando existe essa “importação” maciça de testosterona do exterior, como na nossa macro-economia real, a nossa “fabrica” recebe ordens expressas de diminuir a oferta de testosterona “nacional”. Os níveis de FSH e LH caem e o testículo “entra em férias coletivas”. Muitas vezes “férias coletivas” prolongadas “enferrujam” as máquinas que vão se estragando. É o mecanismo que explica a atrofia do testículo. Quando cessa a “importação” a “fábrica” pode estar “sucateada” a tal ponto que não dá mais conta da produção de espermatozóides, que por sua vez, infelizmente, não podem ser “importados” …. Ao contrário, a testosterona tem “máquinas” mais resistentes e rústicas e podem voltar com maior facilidade à produção interna, nos níveis antigos.

Mesmo num testículo atrofiado, que perdeu irremediavelmente, sua “linha de produção de espermatozóides” , a produção de testosterona é retomada e garante o gênero masculino do sujeito.

Esses os problemas dos nossos amigos pesquisadoreschineses, que, aliás, são os que mais pesquisam a anticoncepção masculina. Fácil de entender num país pelas suas dimensões continentais e com uma explosão demográfica, até então contida na marra, através do controle social próprio do comunismo, com retaliações sócio-econômicas para casais com mais de um filho (inclusive com discriminação desfavorável aos bebês e filhos do sexo feminino - uma visão arcaica que mistura a pretensa força de trabalho maior do sexo masculino à visão belicista de soldados potenciais, entranhadas nas filosofias que permearam a revolução chinesa e o comunismo de uma forma geral). São clássicos os fatos de premiar o casal que se esterilizava, após o primeiro filho, ganhando um rádio de pilha, ou as restrições de consumo e outras punições econômicas aos casais que avançam o sinal do segundo filho(a). Mesmo que felizmente essas práticas de controle social (comunistas/ nazistas ???) sejam saudavelmente deixadas de lado, o problema da superpopulação chinesa não deixa de existir e deixar careca os planejadores do governo chinês. A necessidade de planejamento familiar se mantém na mesma proporção das bocas a alimentar, numa população lá pela casa do bilhão e tanto.

Para nós urologistas, a novidade da pesquisa fica apenas pela dose menor do undecanoato, droga já conhecida, contrapondo-se à frustração da ausência de um derivado mais refinado da testosterona, a exemplo dos milhares de derivados estrogênicos que a indústria farmacêutica já desenvolveu em relação às mulheres.

Contribuem ainda para esse panorama não muito animador no campo da anticoncepção masculina vários outros fatores de cunho biológico e sociológico:

1 - o “machismo” ainda impera, notadamente quando existe qualquer sombra de dúvida quando a integridade da sua “indústria nacional” pessoal possa ser colocada em risco (o que, paradoxalmente, muitas e muitas vezes é ignorado, por burrice e/ou cupidez, na utilização das “bolas”, suplementos “batizados” e anabolizantes puros pelas academias e seus atletas sequiosos de se apresentarem “bombados” e fortinhos).

2 - a biologia masculina não ajuda nesse sentido. Enquanto na mulher temos um óvulo a cada 28 dias, em média, liberado homeopaticamente de órgãos duplos (ovários) que já armazenam todos os óvulos, de toda a vida da mulher, na sua fase fértil; no homem temos milhares de espermatozóides, dia e noite, numa “linha de produção de quatro turnos”.
Qualquer “furinho” e podemos ter um espertinho !
No homem temos uma situação que “transborda” continuamente; na mulher temos um evento singelo com um espaço formidável para agirmos.

Se resolvermos os problemas colaterais e garantirmos a reversibilidade de um método anticoncepcional masculino, seguramente a aderência a esse método vai aumentar consideravelmente.

Sai de campo o “machismo” para entrar o “chauvinismo”, na prerrogativa de ter a si o controle de seu poder fecundante, escapando do velho artifício feminino da gravidez marota e do próprio comando do planejamento familiar, hoje efetivamente nas mãos da mulher, mesmo se consideramos o uso do condom, que exibe certa precariedade, sobretudo nos casais mais estáveis, sob uso contínuo.

É esperar para ver.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Hidrocele

Para o médico hidrocele é uma doença banal. Raramente se encontra uma hidrocele mais preocupante. Para o paciente, contudo, personagem principal quando qualquer coisa não vai bem, hidrocele é uma preocupação danada, daquelas de perder o sono e achar que literalmente a “vaca foi para o brejo” (para usar a riqueza de nossas expressões populares).
O acúmulo de líquido entre o testículo e as suas túnicas é um problema relativamente comum.. Túnicas são capinhas, folhetos de tecido, que envolvem os dois testículos, daí a denominação popular de saco, que na realidade são vários saquinhos superpostos e separados na parte mediana - saquinhos da direita e saquinhos da esquerda.

Geralmente um trauma, uma batida, uma bolada, um “apertão” mais intenso, uma virose banal, pode levar a um processo inflamatório e irritativo dessa túnica (capinha) que passa a produzir em excesso um líquido translúcido, muito próximo da água, que em condições normais serve como lubrificante dos tecidos e do testículo na sua movimentação dentro do escroto (o nome técnico das duas bolsas, popularmente chamadas de saco). Esse líquido tem um ritmo de produção e absorção (que possibilita sua renovação) bem equilibrado.
Quando existe essa irritação esse equilíbrio se rompe e há um excesso de líquido que fica ali acumulado, gerando um aumento do volume do escroto, geralmente em um dos lados. A princípio isso pode passar despercebido pela pessoa menos atenta. Alguns chegam até a ficar contentes com o crescimento do testículo, inflando o orgulho que invariavelmente todo homem tem de suas partes genitais. Mas com o progredir da coisa, vem a preocupação, pois o volume pode aumentar muito, antes mesmo de gerar qualquer sintoma. O que era um orgulho inicial torna-se uma preocupação e um desconforto, muitas vezes até social, tirando os calções de banho bem largos, não há traje de praia que não fique um escândalo. Maiô e sunga nem pensar, pois o cidadão corre o risco de ser preso no meio da praia.

Em outras ocasiões o volume começa a incomodar o andar e fazer esportes e mesmo envergonhar o paciente na hora das relações. A dor é pouco freqüente, mas pode aparecer nas hidroceles mais volumosas. Um jovem não deve deixar uma hidrocele progredir indefinidamente, pois alguns estudiosos apontam um efeito negativo na produção dos espermatozóides pela compressão constante do tecido testicular que os produz.

Geralmente por uma das situações acima o médico é procurado.
Uma ultra-sonografia é fundamental para identificar o problema e, principalmente, excluir outros problemas mais sérios que podem aparecer primeiro e causar uma hidrocele secundária ( um tumor de testículo pode levar a uma hidrocele que o acompanhe).

Não há tratamento clínico para a hidrocele - não há remédios por via oral ou injetáveis. O tratamento é cirúrgico.

A cirurgia da hidrocele é bastante simples e a recuperação também é muito boa, geralmente ocorrendo em poucos dias, não mais do que uma semana ( embora hajam variações individuais e particularidades). Tentativas de esvaziar o líquido por punção e injetar agentes esclerosantes, que causem a aderência (colem) a túnica ao testículo já foram tentados várias vezes e podem ser usados, mas a recuperação parece ser mais dolorosa e o efeito não é 100% , não garantindo o mesmo sucesso da cirurgia.

A hidrocele pode aparecer no outro lado (que tem vida própria!).
Esse problema também pode aparecer na criança e até nos bebês, mas nesse caso a coisa é um pouquinho mais complicada, porque, normalmente, existe uma hérnia inguinal associada por não fechamento do conduto inguinal.

Como regra geral e ensinamento : qualquer aumento testicular deve motivar uma consulta ao urologista - pode ser só uma hidrocele.

Originalmente postado em 31 de Maio de 2008.