Mostrando postagens com marcador Ejaculação precoce. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ejaculação precoce. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ejaculação Precoce

Originalmente postado em 22 de Maio de 2009

Com adendo em 10/6/09 no final


Quem acompanhou a Andrologia, uma parte da Urologia voltada à parte sexual e hormonal masculina, nos últimos 15 anos notou uma evolução muito interessante. Os conhecimentos sobre a impotência fizeram com que, em primeiro lugar se adotasse uma designação politicamente correta para o problema - disfunção erétil. Em segundo lugar houve um grande desvio do eixo em relação a origem do problema: tivemos uma diminuição (exagerada até!) das causas psicogênicas, em favor de uma esmagadora simplificação, misturando causa e tratamento no aspecto orgânico. Praticamente tudo passou a ser tratado com medicamento, dissociando-se (ou tentando fazer isso…) a ereção da relação sexual, como um todo.

Explico-me : antes vários casos claramente tinham uma origem psicológica (um relacionamento complicado, um histórico sexual cheio de problemas desde o início da atividade sexual da pessoa, uma parceira complicada, um aspecto afetivo complexo, medos dos mais variados tipos, etc). De repente, com a pílula azul, imaginou-se que agora tínhamos um “tanque de guerra” que passava por cima disso tudo e simplesmente na hora que o sujeito a tomasse, trinta a quarenta minutos depois, com um pequeno esforço mental e algumas preliminares, meio assim no tapa, a ereção automática e garantida resolveria tudo.

Felizmente para uma boa parte das pessoas com graus variados de disfunção isso resolveu o problema. Funcionou como um “empurrão” e muitas relações sofreram uma “psicoterapia de choque”, assim também “no tapa”.

É certo que de um lado isso foi bom para alguns, mas de outro a coisa foi meio radical. Algumas pesquisas recentes mostraram que alguns relacionamentos foram postos a pique, impiedosamente, não resistindo a “psicoterapia pasteurizada de caixinha”. Outros ainda correm sério perigo - 54% dos usuários desses medicamentos, com união estável, admitiram que passaram a ter relações extra-conjugais após a utilização da droga mágica…

No campo médico começamos a assistir o “efeito Orloff” desta farra. O “day after” de tanta auto-medicação.

Vamos comentá-lo a seguir, porque, antes, vamos voltar à outra parte interessante da Andrologia que começa a se agitar - a ejaculação precoce.

Durante muito tempo a ejaculação precoce foi estudada e compreendida nas suas causas e possíveis intervenções para tratá-la.

Por definição, a ejaculação precoce ocorre quando entre a ereção (ou as vezes apenas a intenção de relação) e a ejaculação o tempo fica em 1 minuto ou menos. Registram-se casos extremos de ejaculação até sem ereção.

Algumas definições tentam ser mais liberais e abrangentes, classificando a ejaculação precoce como aquela que é rápida e insuficiente para que a parceira atinja o orgasmo.

Outras associam o tempo curto, percebido pelo homem (e muitas vezes percebida e manifestada ou não pela parceira), comprovando-se claramente a falta de auto-controle da ejaculação, percebida pelo próprio homem.

Porque tanta complicação???

Não é sem razão. A definição depende de uma análise muitas vezes pessoal, caso a caso. A primeira pergunta que cabe é desconcertante, mas muito válida: E se a parceira tem dificuldade em atingir o seu orgasmo ?

Muitas vezes no consultório a ejaculação precoce é um diagnóstico muito fácil se o paciente apresenta uma mudança do seu padrão anterior. Antes tinha uma vida sexual que satisfazia a si e a sua parceira e isso muda, com evidente diminuição do tempo em que consegue evitar o término da relação, atingindo o orgasmo.

Quando, porém, o paciente é jovem e não tem nenhum padrão anterior há a necessidade de muita conversa na consulta para estabelecer algum padrão e dissociar a situação de uma parceira em específico.

Além disso, o que sabemos muito bem é que a ejaculação precoce está claramente associada a algum estado ansioso. Algum grau de ansiedade que possa mexer com a nossa bioquímica. Stress é um deles. Mas, certamente, encontramos muitos estados emocionais, psicológicos e pessoais envolvidos com essa alteração bioquímica.

Dessa maneira, a ejaculação precoce é uma disfunção e não uma doença - a causa orgânica (que se encontrada, definiria uma doença) é raríssima. É muito mais um desvio, uma alteração do comportamento. É resposta a uma situação que não se encaixa na tranqüilidade que deve existir na relação sexual.

Bioquimicamente isso é bastante claro. Sexo não combina com stress, ansiedade e todos os estados em que a adrenalina está muito elevada.
Sexo está mais para relaxamento, para todas as reações opostas à reatividade natural que temos diante de um desafio, um problema, uma resposta de alarme, de luta e prontidão. É psicologia e fisiologia básica. Todo o organismo reage quando ameaçado - quando em situação de extremo perigo ninguém tem ereção; pelo contrário todo o sangue é desviado para as áreas críticas do organismo - cérebro, coração, pulmões, órgãos vitais. A mão que estava quentinha torna-se fria, as pupilas se dilatam, o coração acelera, a respiração aumenta - a luta e iminente. Pênis e escroto, nessa hora, murcham e se retraem, estão recrutados para isso, o sangue que ali estava vai contribuir para outras áreas e a retração (resultado da contração muscular generalizada) também ajuda a proteger os próprios órgãos reprodutores - é a chamada “economia de guerra”. Em casos extremos, há a descarga adrenérgica em que pode haver a eliminação de urina, fezes e esperma, como a vista nos enforcados.

É fácil imaginar que esse quadro tenha nuances e gradações entre o extremo e situações de menor intensidade que, no entanto, são suficientes para atrapalhar as relações sexuais do casal no dia-a-dia.

É muito comum a ejaculação precoce sumir o melhorar muito nas férias prolongadas.

Feito esse panorama, já se sabe há muito que um recurso que pode ser utilizado para melhorar esse processo de ejaculação precoce, além do indivíduo entender a sua situação, o que o leva a ficar ou ter ficado nesse estado de “alerta”, é o uso de medicamentos que alteram a bioquímica envolvida no processo final .

Muitas são as drogas com esse efeito. Vários anti-depressivos, principalmente envolvidos com a inibição da recaptação da serotonina, têm como efeito colateral um retardo (as vezes brutal e irritante) do paciente não conseguir ejacular.

A dedução é clara - doses menores, menores efeitos colaterais, suficientes para retardar a ejaculação dentro de níveis aceitáveis.

Não é, pois, merecido o estardalhaço que se faz com as pílulas mágicas para isso, que serão lançadas na Alemanha ou em qualquer outro lugar.

Os anti-depressivos, mesmo em doses menores, nem sempre estão isentos de outros efeitos, muitos os seus principais, que se tornam indesejáveis para quem deles não precisa.

O mérito, portanto, das pílulas lançadas com estardalhaço refere-se ao esforço da indústria farmacêutica em buscar substâncias com menores desses efeitos. Os curiosos vão encontrar N substâncias, todas elas geralmente terminadas em …xetina (lê-se …qsetina). Paroxetina, Fluoxetina (o velho Prozac, lembra????), duloxetina e a dapoxetina (o lançamento alemão com nome comercial de Priligy).

Vale lembrar que esses não são os únicos utilizados e muitas vezes a medicação precisa ser ajustada caso a caso, não só na dose , como no agente.

Outro ponto importante é que essas medicações não vão, por si só, resolver o problema. Na ejaculação precoce são fundamentais as terapias cognitivas-comportamentais ( que nome pomposo!). Simples: terapias de conhecimento/reconhecimento do problema e ajustes no comportamento, envolvendo treinamento e mudança de comportamento.

Se não considerarmos isso, vamos assistir a uma “simplificação” idiota da ejaculação precoce, como a que vem acontecendo com a a disfunção erétil, com automedicação e/ou raciocínio mágico de “tomou o remédio” tudo funcionou…

Os consultórios estão cheios de pacientes, em que isso não se passou exatamente desse jeito…

ADENDO POSTADO EM 10 DE JUNHO 2009

Hoje foram veiculadas várias notícias dando conta de que 1 em cada 3 homens são ejaculadores precoces. Há aqui um exagero, inclusive a SBU está buscando quem deu essa informação dessa maneira ( o autor desse blog preside a Comissão de Comunicação da SBU).

Os dados disponíveis em trabalho exaustivo de levantamento de tudo o que se tem publicado em disfunção sexual mostra que o mais correto seria 1 homem em cada 5. As controvérsias e variações ficam por conta de características que podem definir grupos de homens tão distintos como muçulmanos do norte da Índia, como homens que usam ou não álcool.

Para dar uma desempoeirada no seu ingles transcrevo abaixo parte desse trabalho com todas as referências.

Arch Sex Behav. Author manuscript; available in PMC 2008 June 12.
Published in final edited form as:
Arch Sex Behav. 2001 April; 30(2): 177–219.
PMCID: PMC2426773
NIHMSID: NIHMS53253
Copyright notice and Disclaimer
Prevalence of Sexual Dysfunctions
Results from a Decade of Research
Jeffrey Simons, Ph.D. and Michael P. Carey, Ph.D.*
Center for Health and Behavior, Syracuse University, 430 Huntington Hall, Syracuse, NY 13244-2340, USA
*To whom correspondence should be addressed,
315 - 443 - 2755 (voice), 315 - 443 - 4123 (fax), email: mpcarey@syr.edu

Premature ejaculation is defined as ejaculation with minimal stimulation before the person wishes it. Age, novelty of the sexual situation, and recent frequency of sexual activity are considered in determining premature ejaculation. Community estimates of the current / 1- year prevalence of premature ejaculation range from 4% (Ernst et al., 1993; Fugl-Meyer & Sjogren Fugl-Meyer, 1999) - 5% (Schiavi, 1995; Ventegodt, 1998) across three studies. Two additional studies report significantly higher 1-year estimates of 14% (Solstad et al., 1993) and 29% (Laumann et al., 1999). The reason for these discrepant estimates is not clear. Schiavi et al. (1995) report a current estimate of 20% among former alcohol dependent men.
In primary care settings current estimates range from 2% (Nirenberg et al., 1991) to 31% (Read et al., 1997) across four studies. The lowest estimate was among alcohol dependent individuals choosing not to participate in additional research that would have involved intrusive measurements. Volunteers for the study reported a prevalence of 24% (Nirenberg et al., 1991). Thus, prevalence of premature ejaculation may be estimated at between 4% (Catalan et al., 1992b) and 31% (Read et al., 1997) .
There is an extremely large range of estimates of the current prevalence of premature ejaculation in sexuality clinic samples. Current estimates range from 0% (Bhui et al., 1994; Catalan et al., 1992b) to 77% (Verma et al., 1998) across five studies. The highest estimate (77%; (Verma et al., 1998) is from a Northern Indian population. This figures is nearly four times the next highest estimate of 22% (Goldmeier et al., 1997). If the estimate of Verma et al. (1998) is considered an outlier, a more accurate range is 0% (Bhui et al., 1994; Catalan et al., 1992b) to 22% (Goldmeier et al., 1997). Prevalence of premature ejaculation does not appear to be higher among individuals attending sexuality clinics than in primary care settings

E estamos conversados. Se aparecer a fonte fidedigna que confirme a tragédia de um em cada 3, prontamente comentarei.

Práticas condenadas na Urologia hoje. Apelo de marketing &picaretagem.

Originalmente postado em 25 de Abril de 2009

O assunto é recorrente.

Aumento peniano. Anestésicos para ejaculação precoce e outras baboseiras para enriquecer os espertos e empobrecer os incautos. Notícias que abundam na mídia. Praga desde os jornais de bairro até as entrevistas de rádio-pirata. Só não sai mais na Lista Telefonica porque não tem mais Lista da Telefónica, ops.

São todos procedimentos experimentais. Pela lei restritos aos centros oficiais de pesquisa.

Testam-se expansores de tecido, colocados por baixo da pele fina do pênis, “engordando” o membro. O tecido erétil permanece inalterado. Alguns casos dão certo - grande propaganda, depoimentos, etc. Outros são fracasso, infecção, rejeição, extrusão, deformidades, traumas psicológicos, disfunção erétil. Esses vão para debaixo do tapete.

Processos ? Alguns. Lembra um pouco a história do “conto do bilhete”. Implícita a culpa (ou cupidez) de quem se deixa levar pelo trambique, vislumbre do lucro fácil, cumplice da maracutaia. Intenção nebulosa, longe das “intenções primárias” e legítimas. Implícito o desejo de auferir vantagem fora do natural. Deleitam-se os rábulas.

No caso dos anestésicos acumulam-se evidências de que o mecanismo fisiológico não é tão cartesiano assim. Sensibilidade maior - orgasmo mais rápido. E os casos extremos que terminam dentro das calças, sem contato algum ? De outro lado, quanto aplicar? Um pouco menos e nada; um pouco mais e o “amigo dorme”, não acordando nem com uma bela “surra”.

Italianos pesquisadores revelaram resultados promissores com um spray. “Bela roba”. A ciência hoje em dia virou um vaudeville de egos inflados. É marketing da pior espécie. Qualquer pesquisa ganha ares “científicos” na imprensa leiga, que divulga bombasticamente as “descobertas”.

Infelizmente parece-nos uma falta de assunto de quem informa os leigos e uma patifaria de quem divulga dados truncados e iniciais.

A exemplo do que se fez com o registro público das pesquisas e com a peoriginalmente postado em respectiva de auditorias nas mesmas, a comunidade científica tarda a tomar alguma atitude em relação a essas notícias enviesadas. Perde tempo precioso em resguardar um mínimo de recato ou, a bem da verdade, de vergonha na cara de tantos “pesquisadores” conflitantes até o pescoço nos interesses comuns com o mundo financeiro.

Há poucos dias, esse escrevinhador ouviu numa emissora de rádio que um determinado produto, relacionado com pêlos, com suposta destruição ou diminuição, whatever, tinha sido “testado com sucesso em 7 mulheres”, que referiram “sensação” inequívoca de “melhora”.

Sim, meu leitor sonolento. SETE pessoas testaram o produto, fornecendo sua opinião.

Francamente !!!!

Ejaculação precoce & disfunção erétil - pesquisas correntes.

Originalmente postado em 28 de Abril de 2009

Após a publicação da última matéria, anterior a essa, alguns clientes me ligaram.
Alguns para congratulações.
Uns poucos, que me chamaram a atenção, desesperançados e meio deprimidos com a água fria. Nem ao céu, nem à terra. Podemos garantir a esperança em progressos na área da saúde masculina se tivermos um olho crítico no que exatamente estamos lendo.

Por exemplo, nesses dias ocorre o encontro da American Urological Association, a maior sociedade de urologia, considerados os países isoladamente. Um dos briefings para a imprensa tratou do uso de nanotecnologia, numa pomada como veículo, portanto de uso tópico, em que microscópicas partículas (nano é a ordem de grandeza) de óxido nítrico são liberados na mucosa do pênis, facilitando a ereção. É um evento promissor para uma eventual terapia, se chegar ao uso clínico.

Sim, aqui entra a nossa ressalva de se interpretar com cuidado as coisas.
A experiência foi feita com apenas 7 camundongos, geneticamente propensos à disfunção erétil. A ereção foi conseguida em 6 deles após um período médio de 1 hora e 5 minutos da aplicação. Não há menção de outros detalhes relativos à duração da ereção e dos efeitos colaterais imediatos e de longo prazo.

Resumo da ópera - a liberação química do óxido nítrico é potencialmente possível através da nanotecnologia e pode ser útil para obter a ereção em ratos, de acordo com um experimento com um pequeno número de animais testados. Ponto final!

Pesquisa básica e experimental (realizada em laboratório, não envolvendo humanos, mas cobaias). Promissora, mas que exigem um número maior da casuística, estudo de efeitos em longo prazo, efeitos colaterais, custos… Etc.

Situação quase idêntica à da pesquisa italiana com um spray anestésico para ejaculação precoce. Pesquisa inicial com um número pequeno de indivíduos, com seguimento de curto prazo, sem repetição e confirmação de resultados.

Em toda a ciência, todos os dias, resultados iniciais ocorrem aos montes e devem seguir uma rotina implacável para a verificação se a hipótese é verdadeira e se compensa em termos de aplicabilidade (leia-se custo, tolerabilidade, qualidade do efeito, efeitos colaterais & segurança, etc. etc.).

Enquanto isso, a vergonha de procurar ajuda a respeito da disfunção erétil associada a cupidez de se levar vantagem com o “baratinho” tem feito vicejar uma indústria monumental de remédios para impotência falsificados e vendidos pela internet. O negócio é mais rentável do que a cocaína e, adivinhe, já faz parte do leque de investimentos do “outlaw business”.

Informação & experiência - a Internet e a Medicina

Originalmente postado em 5 de Março de 2009

O jornal “O Estado de São Paulo” publicou em 5 de março de 2009 um artigo, na sua página 17, muito interessante.

Trata da crescente utilização da Internet como fonte de informação médica pelos leigos e mostra alguns aspectos peculiares.

Em primeiro lugar, questiona prós e contras da disponibilidade de informação nesse meio, o que, pessoalmente nos parece ridículo. A informação disponível é fato real e inquestionável.

Guardadas as devidas proporções qualquer informação técnica, e aqui não falamos apenas de Medicina, sempre esteve disponível depois que Gutemberg inventou a prensa e passaram-se os anos da Idade Média e alguns outros períodos negros, aqui e acolá, em que livros eram proibidos, necessitavam do famoso”Imprimatur” ou mesmo eram censurados ou queimados em praça pública. Ressalvados esses lapsos, qualquer cidadão sempre pode entrar em qualquer livraria especializada e comprar qualquer livro sobre Medicina, Veterinária, Fisica Atômica, Odontologia, etc. Com o advento da Internet eles podem inclusive ser comprados comodamente da casa do sujeito, sem sair de casa.

Do mesmo modo do que ocorre na Internet, existem livros médicos de respeito e livros “pseudo-médicos”, assim como livros de dietas maravilhosas, curas por cristais, ciência superficial, e pelo o que a imaginação de cada um conseguir atingir. Eles estão em supermercados, rodoviárias, padarias, postos de gasolina, etc.

Resumo da questão - a informação sempre esteve disponível; a informação sempre teve o seu lado seguro, confiável e científico contraposto à informação dúbia, com viés pessoal, comercial, de crendices, objeto de proselitismo, etc.

O grande senão, para que não se fizesse uma “farra da informação”, como a reportagem chama a atenção, como um temor que vai se generalizando entre especialistas de todas as áreas, é que para a obtenção dessa informação o sujeito tinha que por a mão no bolso.

Comprar um livro médico bom não custa barato. Se você tem familiaridade com a própria internet veja, por exemplo, quanto custa a “bíblia” da Urologia:
“Campbell-Walsh Urology” da Editora Saunders, na sua última edição, com 4 pesados volumes e 4.000 páginas de texto apenas de urologia.

Num país pobre, como o nosso, a imagem de um leigo comprando um livro técnico que não seja de sua profissão, por pura curiosidade, para saber mais disso ou daquilo é raríssima. No exterior, nem tanto.

O fato, no entanto, é que as pessoas antes de adquirir um livro geralmente se informam sobre a sua qualidade, sua atualização, profundidade, sobre quem escreveu ou editou, etc.

Ninguém, geralmente, quer comprar porcaria, jogando dinheiro fora.

Na Internet o que se vê é a gratuidade de quase tudo. Isso gera uma facilidade horizontal e vertical em todos os sentidos: é fácil escrever, é fácil publicar, ninguém revê, ninguém contesta, a terra é livre.
Pior do que o papel, que pode aceitar qualquer coisa, embora custe imprimir, publicar, distribuir e vender, passando pelo crivo da qualidade detectada pelos leitores, leigos, críticos e especialistas, a Internet pode “dourar” qualquer conceito e “entupir” qualquer um com uma pilha de informação indistinguível em termos de qualidade, origem e veracidade entre outros atributos que assegure que o que estamos “adquirindo”, mesmo gratuitamente, é verdadeiro e genuíno.

Aí mora o perigo. Aí entra a experiência. A Internet não é médico, não é advogado, não é veterinário, não é dentista, não é cientista.

Estude todas as leis, de cabo a rabo e aventure-se numa petição em qualquer tribunal…

Estude toda a Odontologia e compre todos aqueles motorzinhos e brocas, aquela parafernália toda e materiais que o seu dentista tem e …. (quem vai ser sua cobaia ???????)

Agora pegue seus sintomas, seus sinais, consulte-se na Internet veja o remédio “maravilhoso” (geralmente no site do fabricante ou bancado pelo mesmo), complete com um chat ou blog sobre aquilo que você “diagnosticou” e vá até a farmácia da esquina, compre o remédio ( porque aqui no Brasil, compra-se qualquer remédio, em qualquer esquina, sem receita médica) e seja você mesmo a sua cobaia. Parabéns ! Você realmente é um prodígio, um internauta de primeira!

Em tempos de globalização, deixando o sarcasmo de lado, a informação é totalmente compartilhada (exceto os segredos da fórmula da Coca-Cola, dos satélites de guerra, etc), mas a experiência em distinguir a informação, analisar um trabalho científico em todas as suas implicações, ter senso crítico em relação, inclusive, à evolução do conhecimento naquele assunto específico, são insubstituíveis.
Isso sem falar na parte prática da execução de procedimentos, cirurgias, exames especializados, etc.

Por fim o artigo toca de relance num problema muito mais espinhoso da Medicina, particularmente no Brasil: as consultas de 15 minutos.

Isso sim merece uma reflexão muito mais profunda do que tudo o que possa existir de porcaria e de má qualidade em informação de saúde na web.

Trata-se de uma situação hipócrita que, certamente, não vamos resolver aqui nesse simples artigo que algumas poucas pessoas vão ler.

Hipócrita de todos os lados.

De um lado médicos que se sujeitam a receber R$ 15 ou R$20 por uma consulta médica ou R$ 100 ou R$ 150 por uma cirurgia, geralmente 40 a 50 dias depois de realizado o serviço.

De outro pacientes que pagam alguns planos de saúde valores irrisórios diante do que custa a Medicina que todos querem ( e aqui não estou falando de consultas e cirurgias apenas, mas do que custa na ponta do lápis um equipamento de ultra-som, uma máquina de hemodiálise, um dia numa UTI, um tomógrafo e assim por diante). Nunca ouvi ninguém dizer que o seu convênio médico era barato.
Sei que alguns são realmente bastante caros, mas cobrem a Medicina de ponta.

Salvo as honrosas exceções, o que assistimos hoje é uma situação bastante perversa: o paciente precisa do cuidado médico. A prática médica custa. O médico está insatisfeito ( talvez por R$ 15 ou R$ 20 fosse melhor aprender a cortar cabelos e colocar um salão de beleza bem bonito, sem riscos de acidentes, de erros, dinheiro na mão ao final do serviço…). Do outro lado o paciente fica insatisfeito, não consegue falar tudo em 15 minutos, não tem aquele atendimento humano, interessado. Tem apenas um exame físico sucinto e um monte de exames de laboratório e imagem para fazer.

Entre os dois infelizes e insatisfeitos, com aquelas exceções que já mencionei, está o plano de saúde e os laboratórios diagnósticos que cada vez ficam mais ricos…

Pense a respeito. Algo não está certo.
Pense no que exigimos e de quem exigimos.

Há 25 anos atrás, quando eu entrava em uma sala de cirurgia os aventais eram de algodão (brim) bem grosso, auto-clavados para sua esterilização ( calor úmido sob altíssimas pressões) e portanto reaproveitáveis, como muitas outras coisas que não eram utilizadas necessariamente “dentro” da cirurgia, “dentro” do paciente e eram de uso permanente, como ainda são os instrumentos cirúrgicos metálicos, as pinças, tesouras, clamps, etc. Hoje, no entanto, tudo ficou descartável, tudo é TNT (tecido não tecido) e mais uma infinidade de materiais, geralmente importados.

Quando a tecnologia permitiu e a necessidade da boa prática pediu que agulhas e seringas fossem descartáveis, todos ficamos contentes. Era uma necessidade básica e racional.

Por outro lado a “febre” do uso único e do descartável se generalizou de maneira irracional. Houve um exagero muito grande em várias coisas, não só, mas principalmente, dentro de uma sala cirúrgica. Muitas coisas não precisam necessariamente ser descartáveis e tão sofisticadas, encarecendo sobremaneira a medicina que praticamos. Há maneiras muito seguras de processamento e esterilização perfeita de muitos materiais.

Na realidade criou-se uma indústria bilionária com isso. É a indústria de material de saúde
Se você acha que isso de “tudo descartável” está perfeitamente certo e que isso traz mais segurança, desculpe mas há aqui um engano. Desse engano nasce uma conta que você e eu não podemos pagar e que literalmente “azeda” na ponta do lápis a conta da saúde.

É mais ou menos todo mundo querer andar de Mercedes Benz 700 para ir ao trabalho e depois não sobrar quase mais nada para as coisas “triviais” do nosso dia a dia.

São luxos que desequilibram a distribuição equânime das coisas. E isso não ocorre apenas no setor de saúde suplementar, ocorre também no serviço público em que a gestão dos recursos privilegia a medicina de ponta, em algumas “ilhas de excelência” , enquanto o “arroz com feijão”, o atendimento básico, é apenas o prato diário dos jornais e telejornais, com seus absurdos e carência crônica.

Honrosas exceções à parte novamente, porque será que todo mundo quer fazer transplante hoje em dia ???? Ou, há algum tempo atrás, todo hospital queria ter a sua Cirurgia Cardíaca, Setor de Hemodiálise, Cirurgia Ortopédica, Tomógrafo e Ressonância Magnética…

São procedimentos muito bem remunerados pelo SUS. Isso e tão somente isso.

Quem ler
“O Séculos dos Cirurgiões” vai aprender muitas curiosidades médicas sobre a evolução da medicina e cirurgia. Nós, os cirurgiões, somos descendentes dos barbeiros, que com suas habilidades com as navalhas fizeram as primeiras cirurgias, amputações, etc. , valendo a rapidez e precisão.
No andar atual da carruagem, logo vamos voltar as nossas origens aqui no Brasil.