sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Avança campanha para vacinação pública contra o HPV no Brasil

Notícia publicada no Midia News de ontem anuncia que foi aprovado na Comissão de Assuntos Sociais do Senado um projeto que prevê a disponibilidade na rede pública da vacina contra o HPV para as meninas entre 9 e 13 anos.

É para comemorar.

Mas falta.

Os homens não podem ficar de fora disso.

Toda a Europa, a Austrália e os Estados Unidos preconizam a vacinação masculina.  O homem pode ter menos câncer de pênis, mas tem igual prevalência do HPV e é o transmissor (o vetor) do vírus para o sexo feminino.

Setores organizados da sociedade deveriam atentar para um passo mais largo da Saúde Pública, uma vez que para compras governamentais de R$ 1000 o ciclo de 3 vacinas, o custo cairia para algo em torno de USD 50 ou R$ 100, segundo cálculos da OPAS,  Organização Panamericana de Saúde .

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Reabilitação peniana - do erótico ao científico.


Com a disseminação da prostatectomia radical para o tratamento do câncer de próstata um fato inconteste passou a fazer parte da rotina desses pacientes, após a cirurgia: a volta a atividade sexual.

Num primeiro momento a técnica cirúrgica foi aperfeiçoada para, dentro do possível, poupar os minúsculos feixes vásculo-nervosos relacionados com o mecanismo de ereção. Dentro do possível porque, muitas vezes, isso não é uma simples escolha ou habilidade, senão, uma grande dificuldade técnica que pode colocar em risco a radicalidade do procedimento ("sobrar câncer no local").

Vencida essa etapa, ainda assim alguns fatores em muitos pacientes geram dificuldades sexuais, não apenas na qualidade da ereção, como também no real encurtamento do pênis, posto que um segmento grande da uretra, contido dentro da glândula prostática vai embora na peça retirada na cirurgia. O canal tem que ser suturado e restabelecido diretamente na sua saída da bexiga, resultando na tração do restante do pênis, como a embuti-lo, em função da aproximação de todo o restante da uretra até o colo vesical (orifício de saída da urina).

Esses pacientes, após vários trabalhos e estudos, hoje em dia, vem sendo submetidos à chamada reabilitação peniana com o uso de dispositivos de ereção por vácuo, combinadamente com o uso de inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (Viagra, Levitra, Cialis, Helleva,Suvvia,Vivanza, etc). Os dispositivos de vácuo são os mesmos, que até há alguns anos atrás eram apenas item dos sex-shops, com finalidades eróticas e de aumento peniano.

Os resultados são favoráveis, mas ainda não totalmente definidos e estudados em todos os seus aspectos. Nem mesmo com a finalidade única de aumento peniano, sem cirurgia de próstata.  

Fica, contudo, a informação ao leitor.


Fontes:

Kimura, M., Caso, J. R., Bañez, L. L., Koontz, B. F., Gerber, L., Senocak, C., Donatucci, C. F., Vujaskovic, Z., Moul, J. W. and Polascik, T. J. (2012), Predicting participation in and successful outcome of a penile rehabilitation programme using a phosphodiesterase type 5 inhibitor with a vacuum erection device after radical prostatectomy. BJU International. doi: 10.1111/j.1464-410X.2012.11168.x

Pahlajani G, Raina R, Jones S, Ali M, and Zippe C. Vacuum erection devices revisited: Its emerging role in the treatment of erectile dysfunction and early penile rehabilitation following prostate cancer therapy. J Sex Med 2012;9:1182–1189.

Yuan J, Hoang AN, Romero CA, Lin H, Dai Y, Wang R. Vacuum therapy in erectile dysfunction--science and clinical evidence.Int J Impot Res. 2010 Jul-Aug;22(4):211-9. Epub 2010 Apr 22.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

BOTULISMO - Um indicador de que algo (mais) não vai bem em nosso País.


Com alívio e orgulho o cidadão paulista viu a mobilização (habitual, diga-se com justiça) para salvar uma família vítima de botulismo alimentar em Santa Fé do Sul, uma cidade na fronteira do Estado. Instituições governamentais estaduais se mobilizaram para levar rapidamente o remédio aqui produzido, raro e de pouco uso, para uma intoxicação causada pelo Clostridium botulinum (e mais raramente pelas variantes: Clostridium butyricum ou C. baratti).

O botulismo já foi um problema de saúde pública na primeira metade do século passado. A doença está associada a comida conservada inadequadamente. Em sua forma máxima, o odor é forte e várias outras evidências visuais são bastante fáceis de identificar o alimento impróprio. Mesmo o tradicional abaulamento das latas de conservas...

No organismo humano o agente fica alojado no intestino e produz toxinas das mais venenosas imagináveis, alastrando-se pelo organismo. Causa um quadro clínico muito parecido, no seu início, com a encefalite, uma doença diferente. Geralmente não há febre. O botulismo, ao contrário da encefalite, afeta os circunstantes (consumo comum do alimento contaminado), sempre há mais de uma ou duas pessoas doentes.
  
Na Primeira Guerra Mundial  um surto de encefalite  na Inglaterra foi erroneamente identificado como botulismo (em função das restrições alimentares impostas pela escassez e precariedade do abastecimento alimentar). Mas um ano depois, em 1919, no outro lado do Atlântico,  o “The Boston Medical and Surgical Journal”, em sua edição de quinta-feira, 29 de julho de 1920 relatava que “durante a última parte do ano de 1919, numerosos casos de envenanamento, e um grande número de mortes, foram reportadas em diferentes partes do país

O bacilo é um ser anaeróbio.  Desenvolve-se apenas na ausência de oxigênio.
Foi descrito por  Justinus Kerner, poeta e médico alemão,  entre 1817 e 1822, que definiu a doença, estudando 230 vítimas da doença chamada como “doença da salsicha”. Botulismo vem de “botulus”, salsicha em latim. Mais tarde, em 1895 , aconteceu outro surto envolvendo 34 músicos que consumiram um presunto defumado,  numa pequena cidade belga (Ellezelles), após um funeral. A investigação , levada  a cabo por Emile Pierre Ermengem, da Universidade de Ghent,  descobriu que o problema era uma intoxicação pela toxina (envenenamento)  e não uma simples infecção pelo esporo do Clostridium botulinum.

Historicamente o envenenamento alimentar não é novo.  São vários os elementos e situações. Nesse particular, do envenenamento pelos embutidos e alimentos em conserva, já o Imperador de Bizâncio, Leão VI, no século X proibiu oficialmente no seu império, divisor de civilizações e da geografia moderna, a fabricação de lingüiças contendo sangue.

O agente e a doença

O Clostridium tem distribuição farta e universal na natureza. Fica adormecido e só prolifera sob condições adequadas. Na comida em conserva, geralmente há adição de água, para aumentar o conteúdo total, Processos de defumação  e temperaturas maiores, junto com o envazamento a vácuo ou próximo disso – utilização de gordura,  completam as condições ideais para a contaminação do alimento. Evidentemente nesse processo todo há a falta de higiene, a vilã principal.

Clinicamente as toxinas do Clostrídium, liberadas pela colonização no intestino da pessoa,  atacam as junções neuro-musculares com paralisias, sendo a mais importante a paralisia ou falência respiratória (levando a dependência de respirador artificial) e mesmo a morte.

Antibióticos não funcionam contra a doença.

Anti-toxinas produzidas em eqüinos são utilizadas para a neutralização das toxinas.  

Em crianças as anti-toxinas eqüinas são perigosas. Causam anafilaxia e doença do soro (o que também pode acontecer nos adultos...).

Nas crianças  são utilizadas globulinas humanas (“Human Botulism Immune Globulin”) ,  que são anticorpos neutralizantes contra as toxinas A e B (existem 7 toxinas produzidas pelo Clostridium !) obtidos do soro de pessoas saudáveis  (geralmente trabalhadores em serviços de saúde) previamente imunizadas  com o toxóide botulínico pentavalente, um produto biológico devidamente tratado em relação a outros fatores contaminantes.

Bem...  (Well...)

Porque, “mais isso”,  vai mal no País?

Pense o leitor.

Vivemos numa  conjuntura irresponsável de consumo, de estímulo à gastança,
Em nome do desenvolvimento as famílias estão quebrando, consumindo e comprando mais do que podem pagar. Crédito barato para manter a produção?

E a comparação inteligentíssima  e antológica de Rubens Sardenberg resume bem isso:  "Você pode levar o cavalo até a beira do rio, mas não consegue obrigá-lo a beber água"

No rastro disso prolifera uma atividade econômica inflada artificialmente, em todos os setores,  notadamente do consumo alimentício,  em que regras básicas não são muito, digamos, respeitadas ou seguidas.

Junte-se a ignorância histórica do que, por exemplo, já se sabia no século X em Bizâncio  e a “BABEL” está completa.

Imagine...   Explicar onde era Bizâncio???


Fontes complementares:

1-Boston Medical and Surgical Journal Vol CLXXXIII, no. 5, pag 139-140. July, 20, 1920.

2- Arnon, SS et al . Human Botulism Immune Globulin for the Treatment of Infant Botulism. N Engl J Med 2006; 354;5; 462-471. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

AIDS - o começo do final está perto?

Hoje, dia 19 de julho de 2012,  o New England Journal of Medicine, uma das mais respeitadas revistas médicas do mundo (fator de impacto em 2011 – 53,9*) traz no seu principal editorial, assinado por Dr. Diane Havlir e Dr. Chris Beyrer,  a pergunta acima.



Não é para menos.

Em 2010 foram concluídos dois estudos de grande porte que apontaram favoravelmente para a profilaxia com anti-retrovirais com grande porcentagem de proteção contra a transmissão do HIV, o vírus da deficiência imunológica humana, causador da AIDS  (síndrome da imunodeficiência adquirida), o estágio de doença do HIV.

Por via oral e por via tópica, tal como um espermicida! (**).

Esses medicamentos,  semelhantes aos contidos no tratamentos, apelidados de “coquetéis” anti-retrovirais, utilizados no tratamento e prolongamento do período sem doença dos portadores do vírus podem evitar em proporção não total a transmissão do vírus.

Nessa semana o poderoso  FDA americano (Food and Drug Administration), ligado ao ministério da saúde dos Estados Unidos (National Health Institute) aprovou o seu uso ( nome comercial TAMAVIR).

O remédio ou a conduta não é uma panacéia ou um “passe livre” para a irresponsabilidade ou o “sexo inseguro e irresponsável”.  Mas é um passo concreto e muito importante, por exemplo, para pessoas que vivem um dilema de se relacionar com um(a) parceiro(a) fixo(a) e amado(a) “soro discordante”.

Muito simples de entender o "soro discordante". 

Um casal em que a mulher é soro positiva para o HIV ou o contrário, ou um casal de dois homens ou duas mulheres idem.
Um tem e outro não tem o vírus...

Usar camisinha para uma transa eventual protege muito contra um parceiro ou parceira eventual contaminado, que até nem sabe disso. Talvez nunca mais seja visto na vida de um ou de outro. Mas no caso de alguém próximo, de longa história, as coisas mudam. Amar, em todos os sentidos, quem sempre amamos, por anos, envolve uma convivência complicada. Por mais cuidadosa e sem renúncia, em todos os sentidos, nem sempre pode ser segura. São dramas existenciais e muito pessoais. Dramas de vida.

Esqueça o julgamento (indevido, diga-se) e a "moralidade de ocasião" enquanto na pele do outro.

Esqueça as contaminações irresponsáveis pelo sexo inseguro.

Há milhões de pessoas e de casais, numa situação assim, pelo mundo todo,  vítimas de transfusões, acidentes, contaminações profissionais e mesmo deslizes sexuais...

O assunto é muito mais amplo do que os nossos "óculos" pessoais podem enxergar!

As outras grandes esperanças citadas no editorial são uma vacina realmente promissora que vem sendo testada na Thailandia desde 2009 (**), a evidência clara de uma primeira cura de um paciente HIV-infectado e, mais importante, as evidências de que a terapia  anti-retroviral precoce possa melhorar não só o prognóstico e sobrevida normal do paciente, mas  evitar a transmissão do vírus com eficácia de até 96%. 

Esqueça o sexo, pense na transmissão mãe/ filho  (chamada "vertical" em Medicina).

No Brasil a notícia foi recebida com reticência  e a informação governamental inicial foi de que nada iria mudar em relação aos programas vigentes, que priorizam o sexo seguro e  a educação sexual para prevenir a infecção pelo HIV.

Criticável por um lado; compreensível pelo outro. No aspecto da saúde pública, no coletivo,  pela necessidade de estudos de impacto econômico e elegibilidade  (quem, quando e porque)  de uma eventual adoção dessa medida (profilaxia medicamentosa).

De outro lado, no aspecto individual, pelo medo de se incentivar, direta ou indiretamente, atitudes irresponsáveis diante do fato e da oportunidade. O velho otimismo ignorante.  

Mentes curtas  usam óculos “cor de rosa” e têm um “otimismo” de comportamento totalmente suicida...

Seguramente vamos voltar a assunto tão efusivo e palpitante.


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Notas

(*)
Fator de Impacto é um índice que monitora, realmente, o quão importante são os artigos médicos publicados em uma revista ou jornal científico. Seguem uma fórmula bastante elaborada de avaliação e acompanhamento da repercussão, significado, aplicação, citações, inovação, comprovação,  etc. de um determinado artigo e, no conjunto, dos artigos que aquele veículo publica.  Algumas publicações muito prestigiosas, como o European Urology, jornal oficial de Urologia da Europa tem um festejado FI de quase 9!

(**)
Estudos fundamentais no uso da profilaxia contra a transmissão do HIV

Grant RM, Lama JR, Anderson PL et al. Preexposure chemoprophylaxis for HIV prevention in men who have sex with men. N Engl J Med 2010; 363:2587-99.

Abdool Karim Q, Abdool Karim SS, Frohlich JA et al. Effectiveness and safety of tenofovir gel, an antiretroviral microbiocide, for the prevention of HIV infection in women. Science 2010; 329:1168-74

Nota do blogueiro  - acima você viu duas referências bibliográficas científicas. Não há segredo. Por convenção, na citação do trabalho, artigo científico, que você pode consultar na Biblioteca do Congresso Americano (o famoso PUBMED) , segue-se o seguinte:  Sobrenome e iniciais dos primeiros nomes  (exemplo João Aparecido Pereira -  Pereira JA). Os nomes vêm em sequência e na ordem. Geralmente os trabalhos, hoje em dia, têm muitos autores, até de diversos lugares. Podemos verificar o nome de todos no PUBMED, mas nas citações vão os primeiros e depois a expressão latina  “et al” – e outros ; e colaboradores...
Em seguida vem o nome do trabalho. O inglês é oficial. Ninguém perde tempo em discutir isso (desde a China, passando pelo Oriente Médio, de norte a sul). Depois do nome vem a abreviação do jornal científico. Por exemplo o New England Journal of Medicine  é apenas N Eng J Med. É outra padronização. Os números que se seguem são o ano da publicação, o número do volume da edição, a página inicial e a final. Nos dois casos acima  o primeiro artido do New England saiu em 2010, no volume 363, página inicial 2587 e página final 2599  (dois dígitos, 25, milhar e centena, idênticos, e economizados, abreviados). O outro saiu na Science (revistas com nomes curtos não são abreviados!) ano 2010, volume 329, página inicial 1168 e final 1174. Noutro post vou dar as dicas de como vemos a citação de  um livro ou capítulo de livro científico.


(***)
Rerks-Ngarm S, Pitisuttihum P, Nitayapham S et al. Vaccination with ALVAC and AIDSVAX to prevent HIV-1 infection in Thailand. N Engl J Med 2009; 361:2209-20.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Piercing no pênis – quelóide e outras complicações


Os piercings não são invenção dos nossos tempos. Abrão, ao receber Rebeca para desposar seu filho Isaac, presentou a futura nora, entre outros mimos, com um  “anel de orelha de ouro”.  Um brinco.
Os brincos foram os primeiros piercings. Há evidências, contudo, de que os piercings corporais, não apenas na orelha, mas nos lábios, nariz e outras localizações já eram utilizados antes disso conforme se verifica em papiros antigos, esculturas  e  pinturas em cavernas, além de outros objetos, como achados arqueológicos. Isso não apenas no continente europeu, mas também na cultura Inca, Maia, Asteca e nas  civilizações da  Ásia e Mediterrâneo.
Do ponto de vista arqueológico o uso desses artefatos  simbolizavam “ritos de passagem”.
A primeira referência conhecida ao piercing no pênis está no Kama Sutra, em seu segundo capítulo, atribuindo-lhe um grau de respeitabilidade e credencial do usuário. Não há menção, no entanto, em que lugar isso era inserido.
Em algumas tribos remotas de Bornéu está registrado o costume de inserção de um fragmento de osso na glande peniana.
Nos tempos atuais, portanto, parece que a imaginação nessa área (e a coragem e/ou insensatez) ganhou grandes asas. Muitos casos beiram o masoquismo e a verificação de lesões irreversíveis, notadamente nas fístulas uretrais causadas pelos dispositivos. Nas mulheres existe um movimento que vem ganhando apoio no sentido de considerar o uso desses artefatos, geralmente associados à circuncisão feminina como mutilação genital criminosa.
Recentemente vimos dois pacientes com esses artefatos, vindos ao urologista em função de complicações.
Não se tem registro, em nenhum lugar do mundo, da real quantidade de complicações desse tipo de procedimento.  Na observação e relatos isolados, no entanto, a infecção figura como a principal complicação vista. Não apenas a infecção local que, geralmente, não apresenta muita dificuldade no tratamento, mas também a infecção por hepatite B e C, além do HIV, talvez muito mais pelas condições locais e de técnica da implantação desses dispositivos, do que por eles mesmos.
Nosso primeiro caso tinha uma infecção uretral importante, refratária aos antibióticos mais comuns que necessitou da retirada do dispositivo e tratamento endovenoso com uma cefalosporina de 4ª.  geração associada a um macrolídeo (antibiótico específico) .
O outro caso era, porém, mais interessante. O paciente manifestava seu desconforto com algumas protuberâncias bastante avantajadas ao redor dos orifícios em que se inseria o dispositivo. Tratava-se de um quelóide, um tipo de hiper-cicatrização verificada com certa frequência na população, notadamente em alguns grupos e pessoas com predisposição a isso. Trata-se de uma cicatriz hipertrófica, grande, volumosa,  avermelhadas e de consistência emborrachada, como as de uma cicatriz comum recente, com a desvantagem de não perder essa coloração, volume e demais características com o passar do tempo. Muitas até aumentam.  Muitas lembram cicatrizes finais de grandes queimaduras.
Complicado o tratamento desse paciente. Não há remédio  como na infecção, nem a retirada do dispositivo reverte o problema. O queloide, uma veze desencadeado, progride e qualquer tentativa de ressecção (retirada cirúrgica) esbarra na grande possibilidade da nova cicatriz enveredar pelo mesmo caminho, criando outro queloide.
Existem várias terapêuticas que são tentadas sem garantia de êxito nesses casos. Desde a injeção de agentes como corticoides no local, compressão local, oxigênio hiperbárico,  radioterapia, terapias modernas e experimentais com nanomoléculas de prata e até  mesmo o LASER de CO2.
 Não há tratamento totalmente eficaz. Muitas vezes a remoção cirúrgica cuidadosa, seguida de algum outro tratamento associado melhora o problema.  O excesso de cicatrização envolve a função dos fibroblastos e colágeno, fibrilas e demais estruturas envolvidas na “teia” que sustenta a nossa pele  e que é ativada quando a pele sofre uma agressão como um corte, uma incisão cirúrgica, etc.
Medidas locais na área da estética, mesmo que baseadas em procedimentos cientificamente úteis em outras situações não são de grande valia nessa situação, conforme atesta a Bióloga especializada em Estética  Luana Freato Berti Risso, habituada a recuperação  de pacientes com outros problemas e pós operatório de intervenções na derme e epiderme. “Há uma reticência muito grande em relação ao queloide e as técnicas atuais, fora do escopo cirúrgico e/ou experimental”, frisa Luana.
Desse modo aguardamos o resultado do LASER de CO2, pulsátil e em baixa potência utilizado nesse caso. Oportunamente voltaremos ao assunto.  

Ausência e atividades

Os leitores com certeza perceberam uma "pausa" aqui no blog.
Não foi sem propósito.
Com muito trabalho e as últimas revisões já está publicado nosso segundo livro sobre "Lesões Genitais Masculinas", em inglês "Male Genital Lesions - The urologic perspective" com quase 500 páginas e ao redor de 700 fotos coloridas sobre praticamente tudo o que pode afetar os genitais masculinos.
O livro, que é o segundo depois do inicial sobre HPV no homem, também foi publicado pela Editora Springer da Alemanha , Heidelberg-Berlin. Estava previsto para setembro, mas estará disponível antes.
Se o leitor tiver um tempinho dê uma olhada no link abaixo
http://www.springer.com/medicine/urology/book/978-3-642-29016-9




Outras atividades foram algumas aulas sobre Cistite Recorrente na Mulher e os novos tratamentos existentes. As aulas foram em algumas cidades e centros universitários do interior paulista, envolvendo ginecologistas e urologistas.

A cistite de repetição, um tipo muito comum de infecção urinária, atinge mais as  mulheres, notadamente entre os 20 e 55 anos, e pode ser prevenida com um programa que inclui diversas medidas e investigações.
De longe a infecção urinária é o tipo mais comum de infecção na raça humana e em termos de saúde pública responde por 6% de todas as consultas médicas em geral na população. O uso indiscriminado de antibióticos e uso incorreto colocaram o Brasil numa situação sui generis em relação ao resto do mundo, com níveis alarmantes de resistência bacteriana a agentes muito potentes como o ciprofloxacino. No resto do mundo a sensibilidade a esse medicamento ultrapassa os 95%. No Brasil os últimos dados do Hospital das Clínicas mostram uma sensibilidade abaixo de 70%.  Esse foi um dos fatores que motivaram a intervenção da ANVISA no sentido de controlar a venda de antibióticos mediante receita médica retida, validade de 10 dias e quantidade limitada.

A respeito da Cistite Recorrente ou de repetição, a TV Saúde Brasil fez um clipe conosco, durante o último congresso paulista de Ginecologia da SOGESP, confira abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=4PdT5jXknFI

Até a próxima!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sífilis - algo que pensamos tão distante, mas que está tão perto...

Mais uma vez reproduzo com orgulho uma newsletter do nosso querido Prof. Mauro Romero Leal Passos da Universidade Federal Fluminense e editor do Jornal Brasileiro de DST.


"Heleno, sífilis, negligência, invisibilidade"




Há dias, assisti ao filme Heleno (grande jogador de futebol do Botafogo, 1920-1959).
Gosto muito de cinema, mas, honestamente, neste caso, meu interesse maior era ver a abordagem que seria dada à história de um astro que teve sífilis e dela morreu em um sanatório.
Não sou critico de cinema, todavia me sinto no direito de fazer alguns comentários.
Os autores fizeram um filme primoroso. Embora retrate a vida de um jogador de futebol, o esporte não é o foco principal. A meu ver, o filme é sobre comportamento humano – a história de um homem que escolhe um estilo de vida que define seu trágico futuro. Rodrigo Santoro, no papel de Heleno, tem desempenho digno das maiores premiações nacionais e internacionais. Com certeza, muitos e merecidos prêmios virão para a obra.
No entanto, cabem algumas reflexões de outro teor. A palavra sífilis só é pronunciada uma vez, ao longo de todo o filme. A abordagem dos médicos, em relação ao tema da DST, se não me engano, ocorre em apenas duas ocasiões. Ainda assim, foram observações apáticas, sem mostrar qualquer enfático interesse em que o cliente se tratasse. Nas entrelinhas, era como se lhe dissessem: "O senhor tem sífilis e trate-se se quiser." Em relação às pessoas com quem Heleno mantinha relações sexuais, os médicos não esboçaram qualquer preocupação. Ficamos sem saber se as mulheres com quem ele se relacionou sexualmente também contraíram a doença.  
Ainda não foi dessa vez que a sífilis e as DSTs conquistaram uma boa visibilidade, na tela maior. Não foi dessa vez que médicos apareceram com condutas proativas em relação às doenças sexualmente transmissíveis. 
Aprendi que a arte não tem o compromisso de responder a questões, tampouco de trazer explicações. A arte deve, sim, inquietar, levar o espectador a refletir.
De algum modo, Heleno me inquietou. Não por ter alertado sobre a gravidade das questões ligadas às DSTs, mas por ter silenciado a esse respeito.
Precisamos atuar em todos os cenários, para que menos pessoas sofram de flagelos que há milênios afligem os seres humanos, a despeito de todos os conhecimentos científicos e de todos os recursos disponíveis para combatê-los.
Por fim, vale ressaltar que, independentemente do meu forte, e, muitas vezes, chato, viés de especialista em DST, recomendo o filme. É obra imperdível e traduz com perfeição a alta qualidade do cinema brasileiro da atualidade.
Mauro Romero Leal Passos
Chefe do Setor de DST da Universidade Federal Fluminense
Editor-chefe do Jornal Brasileiro de DST