terça-feira, 20 de setembro de 2011

Dor no testículo

Originalmente postado em 6 de Janeiro de 2010

Uma queixa muito frequente que motiva procurar o urologista é a dor em um dos testículos e mais raramente nos dois.
Dores muito agudas e fortes devem ser imediatamente verificadas. O pior quadro que pode ocorrer nesses casos é a torção do cordão que liga e suspende o testículo dentro da bolsa escrotal. Nesse cordão existem vários elementos como artéria, veias e o conduto deferente por onde passam os espermatozóides. A torção desse conjunto de tubos faz com que o suprimento de sangue arterial, que chega ao testículo, diminua muito ou mesmo cesse. A falta de irrigação de um órgão leva à morte daquela área sem sangue. Isso é genericamente denominado de infarto. O termo infarto, portanto, não é uma coisa exclusiva do coração. No caso da torção de testículo temos como conseqüência um infarto testicular. Como o tecido é muito nobre a falta de oxigênio leva à necrose dos tecidos. Isso evolui com o comprometimento do tecido responsável pela produção dos espermatozóides e depois das células que produzem o hormônio masculino, a testosterona. A maior parte dos pacientes que têm a infelicidade de sofrer uma torção testicular é constituída de crianças, adolescentes e adultos jovens, quando a função reprodutiva ainda precisa ser protegida e é muito importante na vida desses indivíduos. Geralmente existe um fator predisponente do ponto de vista anatômico.


Em linhas gerais esse defeito relaciona-se com a conexão do cordão ao testículo e epidídimo. Numa pessoa normal essa inserção é em toda a porção póstero lateral do testículo em seu maior eixo (imagine uma azeitona preta grande, como se estivesse em pé e com esse cordão ligado de cima abaixo na sua face posterior. As chances de esse cordão rodar e torcer são mínimas. Já nas pessoas predispostas a inserção desse cordão é feita no topo do testículo, como imagem clássica de um badalo de sino. Nessa situação o movimento circular é fácil e pode torcer o cordão. O atendimento dentro das primeiras 6 ou 8 horas garante a recuperação praticamente total desse testículo, sem morte de tecidos. Atendimentos fora desse prazo são acompanhados de comprometimento do órgão. O tratamento da torção é cirúrgico. Rarissimamente se consegue desfazer manualmente a torção. Geralmente o edema local e a dor inviabilizam essa manobra.

Mas, felizmente, a grande maioria das dores testiculares não são tão graves assim.
A dor testicular pode ser sinal de inflamação/infecção no testículo (orquite), no epidídimo (epididimite) ou nos dois (orquiepididimite). Pode ainda refletir um problema da parede abdominal (hérnia inguinal ou inguino-escrotal) e até como dor reflexa de cálculos renais.
Raramente existe a possibilidade de ser uma dor de origem músculo-esquelética, geralmente envolvendo os adutores da coxa e ligamento da região perineal. Esse tipo de diagnóstico é o que chamamos em Medicina como “diagnóstico de exclusão”. Há a necessidade de eliminar todas as demais possibilidades antes de se firmar esse tipo de diagnóstico. O tratamento das condições inflamatórias é clínico e tem vários detalhes caso a caso.
Para os mais hipocondríacos que podem logo pensar em câncer de testículo fica um alívio na informação de que na grande maioria das vezes ele não se acompanha de dor. O sinal principal é a presença de um nódulo (um caroço) indolor, endurecido, de fácil palpação durante o banho e no exame físico do testículo. A dor, quando presente no tumor pode aparecer na evolução de tumores de crescimento mais rápido em que podem ocorrer pequenos infartos no tecido tumoral (dentro do próprio nódulo canceroso). O tratamento dos tumores de testículo atualmente é um dos mais promissores em que podemos falar de cura total. A retirada do testículo contendo o nódulo canceroso é o pilar do tratamento. A quimioterapia complementar é muito eficaz.

A perda de um testículo não representa uma ameaça à função sexual e reprodutiva. O testículo remanescente, desde que normal anteriormente, mantém as duas funções, inclusive com um aumento de seu tamanho (o que em Medicina é chamado de vicariância do órgão – ocorre também em rins que se tornam únicos, por exemplo). No entanto, uma atenção especial deve ser dada à preservação da função reprodutiva quando houver indicação de quimioterapia. Hoje em dia antes de sua realização pode-se lançar mão da coleta de amostras para congelação em banco de sêmen, antes do tratamento. Algumas vezes, meses após o término da quimioterapia pode haver o restabelecimento da função reprodutiva do testículo que restou. O contrário também pode acontecer. Daí a importância do banco de sêmen nesses casos.
Outra situação que deve ser conhecida é o efeito contralateral de situações infecciosas e mesmo a atrofia de um dos testículos. Trocando em miúdo podemos ter um quadro inflamatório/infeccioso de um lado, com o testículo evoluindo para uma atrofia e, nessa situação, influenciar negativamente a função do outro testículo que não apresentava nada no início.

A atrofia do testículo manifesta-se pela diminuição do seu volume. Em condições normais pode existir uma pequena diferença volumétrica entre um testículo e outro no mesmo indivíduo. Isso em geral não ultrapassa uma porcentagem de 15 a 20%. Discrepâncias maiores devem ser investigadas.

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